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segunda-feira, setembro 20, 2010

Cantai com alma, saudai o MARÍTIMO!


Querido Club Sport Marítimo,

Ainda não fazia ideia do que era futebol, mas já sabia que gostava de ti.

Lembro-me de percorrer a arrecadação de ferramentas do meu avô materno Alexandre e de ficar longos minutos a olhar para os quadros bolorentos, já quase sem cor, das grandes equipas que defenderam o teu nome em décadas já distantes, quase todos homens madeirenses de ar rude que jogavam à bola equipados com as nossas cores verde-rubras, cores dos ares republicanos que pairavam em Portugal em 1910. Como adorava o nosso leão dentro do leme que simbolizava os nossos primórdios, a raça de homens madeirenses, homens simples do mar que desafiavam ingleses ricos, éramos imbatíveis, viesse quem viesse. Éramos e somos os endiabrados, campeões das ilhas!


Lembro-me das histórias do velho Alexandre, as histórias de quando jogávamos no regional, porque o Estado Novo não permitia que tu jogasses no continente, das rivalidades com o União da Bola e as zebras do Nacional, de quando subimos à I Divisão em Maio de 1977, nesse dia o meu avô invadiu o nosso querido Caldeirão dos Barreiros por cinco vezes junto com a multidão, logo o meu avô Alexandre que foi sempre um homem sóbrio, de poucos sorrisos.

Não sei bem quando fui pela primeira vez ao nosso estádio, mas houve uma tarde de chuva em que ganhámos ao Desportivo de Chaves por 2-1, passei o jogo às cavalitas do meu pai. É das melhores recordações que tenho do meu pai, obrigado Marítimo, fomos encharcados para casa, mas eu e o meu pai íamos felizes por teres ganho nesse dia.


Dez anos passaram desde que brincava com uma lata de refrigerante com outros meninos da minha idade no antigo peão e comia gelados pagos pelo meu avô até aos dias em que passei a ir com os meus amigos que também gostam muito de ti, religiosamente em todos os dias de jogo, nas tardes quentes de Domingo ou nas noites chuvosas do nosso Funchal natal. Como ficávamos arrepiados quando tocava a Marcha em tua honra. Nunca te assobiamos, porque não se assobia alguém da família, e tu fazes parte da nossa família Marítimo.

Peço-te desculpa por todos os vira-casacas que apoiam-te sempre, mas que às vezes torcem por outros clubes que nada têm a ver com as nossas gentes, eles sabem lá o que é um clube grande, sabes bem que tu também o és, e para muitos de nós, 100 vezes maior! Nós não te traímos, acreditamos na fidelidade. Nunca caminharás só!


Fazes 100 anos hoje, estás a ficar velhinho, o meu avô tem 85, o meu pai 44, e eu 23, e como vês és consentâneo em todas as gerações, intemporal. Mesmo que às vezes estejamos desiludidos com os resultados, sabemos bem que a culpa não é tua, mas sim daqueles que não sabem defender-te como deviam e como mereces, mas de ti Marítimo, vamos gostar sempre, todos os nossos dias da nossa vida. E os nossos filhos saberão que os seus antepassados também vibraram, choraram e gritaram por ti. Como vês, és muito mais que um clube da bola, és a nossa família, a minha e a de muitos outros madeirenses, porque "pertencer ao Marítimo é ser duas vezes madeirense ".

Feliz Aniversário nosso querido Club Sport Marítimo pelo teu século de vida, se não nos vermos daqui a outros 100 anos, alguém com o meu sangue o fará por mim, pelo meu pai, pelo meu avô, com orgulho e altivez!

Muitas felicidades e até sempre!
O teu amigo, Hélder Teixeira

sábado, julho 03, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo IX, Parte 7

Revolução de Abril Com o final da primeira participação no campeonato nacional da II divisão à vista, acontece a Revolução de 25 de Abril de 1974. Os primeiros sinais de liberdade e de democratização do país, permitem que o Marítimo relance o debate em torno das condições que sustentam a sua participação nas provas nacionais. São alcançadas pequenas alterações, conquistadas gradualmente, mas que vão aliviando parte dos pesados encargos que recaem sobre a colectividade. Até ao momento em que essa participação se fará em condições normais – sem as exigências financeiras iniciais – o Marítimo ainda suportou os ditames dos organismos do futebol nacional.

Subir um degrau A plena participação nacional dos clubes madeirenses só acontecerá mais tarde. Pelo meio, entreabriu-se a oportunidade de um segundo clube madeirense ir para os ‘nacionais’, através do acesso à III divisão. Mas foi a institucionalização do regime autonómico que permitiu – através do suporte das despesas de participação – a abertura das portas das provas nacionais à generalidade dos clubes, nas mais diversas modalidades. Até lá, os maritimistas repetirão vezes sem conta, orgulhosamente, quanto custou aqui chegar… A segunda participação no campeonato nacional da II divisão, já com a democracia implantada, conduz o Marítimo ao quarto lugar da tabela classificativa final. Nos 19 jogos disputados nos Barreiros são consentidas duas derrotas (Caldas, 0-3, e Portimonense, 2-3) e um empate (Barreirense, 1-1). Fora de casa o comportamento não é ainda o melhor. Algumas partidas vão ficar marcadas por pressões alheias ao desporto – adeptos de clubes continentais, com opções políticas distintas das que vêm sendo expressas maioritariamente nas eleições que o regime democrático organiza também na Madeira, insultam e chegam mesmo a tentativas de agressão a jogadores e apoiantes do Marítimo. Por outro lado, o número considerável de campos ‘pelados’ é penalizador da qualidade que vem sendo imprimida ao futebol verde-rubro.

Vamos a Contas? Já se viu que a revolução de Abril de 1974 tinha permitido reinvindicar a alteração no quadro de condições que permitiam a presença do Marítimo em provas nacionais. Em 24 de Agosto deste ano, o congresso da Federação emendou algumas dessas condições – o Marítimo continuará responsável pelas passagens aéreas dos adversários, mas ‘livra-se’ da estadia dos mesmos no Funchal e ‘despacha’ os encargos da arbitragem. É neste contexto que o Marítimo dá nota pública dos encargos que tem de suportar na II divisão. Os números da segunda participação foram os seguintes: - equipas visitantes 900 contos - fundo de arbitragem 180 contos - policiamento 145 contos - Federação 67 contos - Associação 54 contos - outros fundos 108 contos O montante dos encargos com as equipas visitantes (900 contos) era praticamente o dobro do valor dispendido com as rubricas estabelecidas nos regulamentos para todos os clubes (fundo de arbitragem, policiamento, taxas federativas e associativas, outros fundos).

Terceira participação Na terceira época de disputa do campeonato da II divisão, o Marítimo volta a alcançar o quarto lugar da tabela classificativa. A prestação nos Barreiros regista uma derrota (Almada, 1-2) e quatro empates (Oriental e Peniche, ambos a 1-1; Torreense e Olhanense, ambos a 0-0). A prova decorreu sob o signo da esperança de qualificação para disputa da ‘liguilla’ II/I divisão. Mas na ponta final da mesma, a equipa não foi capaz de concretizar o objectivo, exibindo-se num plano que acabou por comprometer tais aspirações. Em jeito de balanço das três presenças, os maritimistas – sócios, adeptos, simpatizantes, jogadores, quadro técnico e directores – bem como os madeirenses em geral, já tinham a certeza da inevitibilidade da ascensão ao escalão principal do campeonato nacional. É o que vai acontecer na época

quinta-feira, julho 01, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo IX, Parte 6

Perdas dolorosas Nestes momentos de intensa actividade, quis o destino ser irónico com a história e a vida do Marítimo. Só assim se pode descrever o desaparecimento do mundo dos vivos de algumas das figuras que tanto tinham labutado para que a participação em provas nacionais fosse uma realidade. Álvaro Reis Gomes, o brilhante defensor das teses maritimistas na luta pela integração em provas nacionais, falece ainda antes do Marítimo iniciar a prova. José Rodrigues (Barrinhas), o homem que capitaneou a equipa do Marítimo entre 1910 e 1924, e Jordão Gomes Biscoito, à data o sócio ‘número um’ da colectividade (inscrito desde 1918), são dois símbolos que o clube também perde na altura. E mal estavam dados esses primeiros passos no campeonato da II divisão, acontece a morte de Henrique Vieira da Luz, o dirigente dedicado e benemérito que, até há bem pouco tempo atrás, dera, de forma exemplar, o melhor das suas capacidades à colectividade. A família verde-rubra, apesar da euforia e entusiasmo advindos das circunstâncias desportivas, sofre com perdas tão dolorosas. O caminho a seguir era, agora, honrar da melhor maneira as memórias de tão ilustres figuras.

Maus começos No final da época de estreia, o Marítimo ocupa um honroso quinto lugar na tabela classificativa, se se tiver em linha de conta que a sua ‘candidatura’ inicial contara com a possibilidade de ficar integrado na III divisão. A estreia na prova aconteceu em Leiria, frente ao União local, a 16 de Setembro de 1973. O Marítimo perde por 3-2. Na recepção ao Atlético, na segunda jornada, nova derrota, com a marca de seis bolas sem resposta. Segue-se a deslocação a Sacavém, onde é averbada nova derrota, desta feita por 1-0.

Bons acabamentos Mas tudo se recomporá a tempo. E o já referido quinto lugar será obtido mercê de 18 vitórias, seis empates e 14 derrotas. São apontados 79 golos e consentidos 53. Os números finais estão longe das ‘suspeições’ levantadas nas primeiras três jornadas. No final desta primeira participação um sentimento percorre a família verde-rubra e a generalidade dos desportistas dos madeirenses – com mais experiência e rigor, seria possível chegar à I divisão.

Grandes iniciativas Pelo meio da primeira época de participação nacional, fruto do espírito de iniciativa do Marítimo e do madeirense radicado no Brasil, José Vitorino de Abreu, é proporcionado aos madeirenses espectáculos futebolísticos de primeira qualidade. A presença da Portuguesa dos Desportos de São Paulo (Brasil) no Funchal, só assim pode ser qualificada. No primeiro momento dessa presença, os brasileiros derrotam o Marítimo com um lisonjeiro 2-0 (16 Janeiro de 74) e, num inédito jogo realizado na Madeira, empatam a zeros com o convidado Vitória de Setúbal (23 Janeiro). Os brasileiros deslocam-se para o continente. E voltam à Madeira para novas exibições, desta feita integrados num programa em que também participa o Benfica. Os lisboetas derrotam o Marítimo por 3-0 e a Portuguesa dos Desportos por 5-3, em memoráveis jornadas de propaganda futebolística.

terça-feira, junho 29, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo IX, Parte 5


Últimas Barreiras O comunicado oficial da Associação de Futebol do Funchal nº 37, de 17 de Abril de 1973, publica a deliberação da direcção que estabelece o princípio da solidariedade financeira com o clube que venha a disputar provas nacionais na época 1973/74. Uma solidariedade mediada pela aceitação do aval exigido pelo congresso da Federação, desde que o(s) clube(s) interessado(s) apresentasse( m) garantia bancária que colocasse a Associação a cobro de qualquer eventual prejuízo. O mesmo comunicado da Associação esclarece que fora dado conhecimento à Federação da oferta, por parte do Marítimo, de uma garantia de quatrocentos contos, valor tido como suficiente para suportar a participação na ‘liguilla’. O Sporting da Madeira recorre para o Conselho Jurisdicional, apelando à anulação da decisão da direcção associativa. Mas a deliberação final não lhe é favorável. Em Maio de 1973, a Federação oficia a Associação a informar ser indispensável que a solidariedade da Associação para com o seu clube filiado que vier a disputar a ‘liguilla’ chegue aos oitocentos contos – o dobro do valor até então apresentado. O Marítimo oferece essa garantia à Associação. Se vencesse o campeonato regional, iria disputar, na época 1973/74 provas nacionais regulares. As vitórias na ‘secretaria’ estavam garantidas. Faltava apenas a confirmação em campo…

Último Título Regional
Dentro das quatro linhas dos campos em que o Marítimo disputou a ‘outra’ batalha pela subida de divisão, as dificuldades não foram menores. Também conhecedores da importância do desfecho da prova, os adversários do Marítimo, naturalmente, empolgam-se na oposição ao clube. Mas o valor da equipa do Marítimo que se vinha impondo no panorama regional há várias épocas foi suficiente para alcançar o mais desejado de todos os títulos regionais até então disputados. A conquista deste título marcou o adeus do clube campeão da Madeira às provas regionais. Entre a alegria da concretização do sonho e tristeza do corte dos laços com as provas regionais, o Marítimo dá início ao ideal de se transformar de ‘campeão das ilhas’ num dos grandes de Portugal.

Na "Ligilla" A entrada na II divisão exigia a qualificação nos dois primeiros lugares da prova de competência entre a III e a II divisões. Na prova participam, além do Marítimo, União de Montemor, Sacavenense, Tramagal e Odivelas. No final da prova, o clube ocupa a terceira posição, com nove pontos, os mesmos que o segundo classificado e menos um que o primeiro, Tramagal e União de Montemor, respectivamente. Os verde-rubros foram ainda os melhores marcadores da prova e os que nela sofreram menos golos. Mas a classificação final não era suficiente para ascender à II divisão. Os resultados económicos desta ‘primeira aventura’ nacional, confirmando as expectativas dos dirigentes maritimistas foram claramente satisfatórios. Ultrapassam-se mesmo os objectivos iniciais, com um montante superior aos 800 contos realizados nos quatro jogos em ‘casa’.

Alargamento faz justiça
Quando já estava assumido que o terceiro lugar conduziria a uma passagem pela III divisão nacional, o congresso da Federação decide aumentar o número de clubes da II divisão. Desta decisão resulta a ‘repescagem’ do Marítimo para o escalão secundário. O Marítimo merecia este desfecho. E no arranque para a sua participação no campeonato, o entusiasmo que percorre a generalidade dos madeirenses vai sendo dirigido para o sonho de alcançar, o mais rapidamente possível, a I divisão.

domingo, junho 27, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo IX, Parte 4


Passos Finais As posições de Marítimo e Nacional permitiram a elaboração, pela Associação de Futebol, de uma proposta, a ser apresentada ao congresso federativo, na qual tem particular relevância o assumir da responsabilidade do pagamento das deslocações dos clubes continentais à Madeira. Tudo bem ‘espremido’, os únicos benefícios para os madeirenses advinham da única porta que fora aberta (leia-se: ligeiramente entreaberta) a nível nacional – as deslocações terrestres no continente poderiam correr por conta do mesmo ‘Fundo de Deslocação’ que protegia os clubes continentais em idênticas circunstâncias. O resto era tudo a pagar pelos madeirenses – até as deslocações das equipas de arbitragem à Ilha. Na linha de sempre, o Marítimo assume tudo. O seu presidente, secretário e tesoureiro assinam um termo de responsabilidade perante a Associação. Fica estabelecida a obrigação de cobertura de eventuais prejuízos – se das receitas dos jogos, que ficariam em poder da Associação, não fosse possível liquidar os encargos assumidos, nos três dias seguintes ao jogo o clube teria que cobrir a diferença junto da tesouraria associativa.

Aval laça Polémica Tudo a postos para o congresso federativo a que já nos referimos. A 26 de Agosto e a 9 de Setembro de 1972, a proposta da Associação de Futebol do Funchal é votada favoravelmente pelos congressistas. Com uma ‘ligeira adenda’ – essa aprovação ficou sujeita à aceitação de apresentação de aval que cubra os montantes envolvidos na participação madeirense. É uma questão levantada à última hora. Artur Agostinho, o delegado da Associação no congresso federativo, assume-a. Sob pena de deixar que a porta entreaberta se fechasse rapidamente. Esclareça-se ainda que este aval, pelas normas em vigor, só podia ser apresentado pela Associação, única entidade que se relaciona directamente com a Federação.

Descontentamentos Esta circunstância é rispidamente criticada por vários clubes madeirenses, que questionam a legitimidade da Associação – principalmente do seu delegado – para assumir tais responsabilidades, para mais sem consulta de todos os filiados. Entre as diversas posições, a do Nacional vai mais longe e, ultrapassando as tais normas que impõem que as relações dos clubes com a Federação se processem através da respectiva Associação, telegrafa à Federação pedindo esclarecimento sobre a validade do aval prestado pelo delegado da Associação no congresso. Por seu turno, Sporting da Madeira, União, Nacional, Santacruzense, Machico, Bom Sucesso, Ribeira Brava, Pátria e Lazareto subscrevem o pedido de uma assembleia geral da Associação. O objectivo dos seus dirigentes é que a Associação não assuma qualquer compromisso com a participação de qualquer clube madeirense em provas nacionais.

Marítimo Concorda As reacções dos diversos clubes madeirenses tinham diferentes matizes. Mas no ponto essencial, o Marítimo estava de acordo com os seus pares regionais e declara-o claramente. Assim: "este clube não pode de modo algum deixar de aceitar como bem ponderada e prudente a restrição deliberada pela maioria dos clubes filiados na AFF, na medida em que vêem acautelar aquele organismo de possíveis prejuízos resultantes da actividade de um deles apenas"… Esta posição servia de base à pretensão, exposta à Federação, do Marítimo substituir o referido aval da Associação por uma responsabilidade efectiva de elementos a indicar pelo clube, através de garantia bancária, cujo montante seria acordado entre as partes. A Federação limita-se a informar que não tem competência para alterar as deliberações do congresso, bem como que o assunto tem de ser resolvido entre a Associação do Funchal e os seus filiados.

sábado, junho 26, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo IX, Parte 3


Pagar Passagens Este trabalho deu frutos. E, através de ofício da Associação, datado de 24 do mesmo mês, os clubes tomam conhecimento de que o presidente e os secretário-geral da Federação tinham concordado com as pretensões dos clubes madeirenses. Esclarecia-se, depois, um ‘pequeno pormenor’: as passagens do percurso Funchal-Lisboa-Funchal e Lisboa- Funchal-Lisboa seriam sempre da responsabilidade do clube que disputasse o campeonato da III divisão. Isto é – para entrar na prova nacional era indispensável pagar a sua deslocação para o continente e assumir idênticos encargos em relação aos clubes continentais.
Este trabalho deu frutos. E, através de ofício da Associação, datado de 24 do mesmo mês, os clubes tomam conhecimento de que o presidente e os secretário-geral da Federação tinham concordado com as pretensões dos clubes madeirenses. Esclarecia-se, depois, um ‘pequeno pormenor’: as passagens do percurso Funchal-Lisboa-Funchal e Lisboa- Funchal-Lisboa seriam sempre da responsabilidade do clube que disputasse o campeonato da III divisão. Isto é – para entrar na prova nacional era indispensável pagar a sua deslocação para o continente e assumir idênticos encargos em relação aos clubes continentais.

Marítimo Assume
Era uma exigência inqualificável, mas a única em aberto. Daí que o Marítimo decida, a 10 de Dezembro, informar que aceita essa condição, na certeza de que, assim procedendo, estaria a disponibilizar o seu contributo à maior aspiração do futebol madeirense. No dia em que aspirava o prazo estabelecido pela Associação para resposta dos interessados às condições avançadas pelos dirigentes federativos, a Associação recebeu, da parte do Nacional, a informação de que o clube decidira participar no campeonato da III divisão. Não era a resposta solicitada. A questão era saber-se se os pretendentes às provas nacionais aceitavam pagar a exigência de pagamento da totalidade das viagens. Tanto mais que a própria Associação, depois de ter dado conhecimento da posição do Marítimo à Federação, tinha solicitado que outras despesas (estadia e transportes das equipas continentais no Funchal, bem como deslocação e estadia da arbitragem) fossem cobertas por fundos federativos.

Federação Exige Da posição dos dois clubes é dado conhecimento à Federação. A 24 de Janeiro de 1972, fica-se a saber que a instituição que manda no futebol nacional vê com ‘atenção e carinho’ a extensão de uma prova nacional de futebol à «Pérola do Atlântico». Palavras bonitas, que chocavam com a ideia de que as propostas madeirenses ainda careciam de melhor apuramento antes de ser presentes a congresso. Os estudos do secretário - -geral da Federação, complementados pelos realizados na Associação, apontam para um encargo de participação a atingir um montante global ligeiramente superior aos 1200 contos. Que os clubes interessados deviam assumir…

Prazo Certo
… até às 18H00 do dia 21 de Fevereiro, passados que estariam vinte dias sobre a divulgação desses mesmos estudos. O Marítimo volta a assumir as posições de sempre. Confiantes e audazes, os dirigentes do clube esclarecem, na mesma missiva, que aceitam todo o condicionalismo que for julgado necessário para que possa ser aprovado superiormente o seu ingresso no campeonato nacional de qualquer divisão. O Nacional informa que aceita as condições impostas para a sua futura entrada na prova em questão.

quinta-feira, junho 24, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo IX, Parte 2


Longa Batalha Estes momentos finais do reunir de condições para que o campeão da Madeira ascenda aos nacionais tinham antecedentes deveras interessantes, cuja leitura permitem clarificar as posições das partes envolvidas e o papel do Marítimo no processo. Recuemos a Dezembro de 1969, altura em que a direcção do Marítimo faz chegar à Associação de Futebol do Funchal uma missiva em que perspectiva a alteração do figurino do futebol madeirense e manifesta o desejo de ser integrado nos campeonatos nacionais. É solicitado que seja dado conhecimento à Federação destas posições.

Reacção Contrária A publicação do teor das posições verde-rubras na comunicação social madeirense gera reacções do Nacional, do União e do Sporting da Madeira. Reagem negativamente aos propósitos do Marítimo e defendem que a Associação deveria formalizar junto da Federação as suas posições. Basicamente, estes clubes pretendem que a Associação efectue diligências junto das instâncias federativas, no sentido dos clubes locais disporem de acesso a provas nacionais em igualdade de circunstâncias com os clubes das associações continentais. Cumprindo o mais elementar dever de equidistância no tratamento dos seus filiados, a Associação faz seguir as missivas para a Federação, respeitando a ordem de chegada das mesmas: primeiro a do Marítimo, depois a dos restantes clubes.

Primeiro Sinal A 6 de Janeiro de 1970 a Federação responde às comunicações da Associação. Era indispensável que fosse apresentada, subscrita pela entidade gestora do futebol madeirense, uma proposta concreta, a ser discutida no Congresso federativo. Era um primeiro sinal. A Associação, por força regulamentar, detinha as maiores responsabilidades no andamento do processo. Daí que solicite aos clubes, no final do mês, um estudo financeiro sobre a pretendida participação. O Marítimo responde a 6 de Fevereiro. Avança com novas ideias sobre o apuramento da representação e garante-se, no caso de ser o apurado, uma receita de cem contos, suficientes para suportar a despesa da sua deslocação ao continente. O União responde a 7 de Março. Volta a manifestar interesse em participar nos campeonatos nacionais da III divisão, mas entende que os estudos referentes à dita participação deviam ser elaborados pela Associação. Até 20 de Março, é sabido que Nacional e Sporting não tinham respondido à Associação.

Ponto Morto Foi preciso esperar mais de um ano para que o assunto voltasse a ser debatido, em boa parte por iniciativa da nova direcção associativa, eleita em Julho de 1971 e que tem a liderança de Jaime dos Anjos Melim. Organiza-se nova reunião para debater o assunto. O objectivo é expor aos filiados a situação que poderia ser criada pela possível aceitação, por parte do congresso da Federação, da entrada de um representante da Madeira no campeonato nacional da III divisão. Seguiu-se novo encontro, com o mesmo propósito, a meados de Novembro. As posições das diversas entidades envolvidas e as alternativas possíveis iam ficando mais claras.

terça-feira, junho 22, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo IX, Parte 1


Subida a Pulso Para que ficasse garantido no plano regulamentar – no congresso da Federação – e dentro de campo – por via da conquista do título de campeão da Madeira da época 1972/73 – o direito à disputa do acesso à II divisão nacional, o Marítimo enfrentou a oposição dos adversários madeirenses potencialmente interessados em alcançar idêntico patamar. Dessa oposição resultarão contratempos e dificuldades com que o clube contava, mas cujas consequências tiveram o condão de tornar o processo ainda mais complexo. O Marítimo adoptou uma posição cautelosa junto das entidades desportivas regionais e nacionais, marcada essencialmente pela permanente disposição para negociar o melhor acordo possível. Olhando além das razões que lhe assistiam, o clube soube entender que se impunha laborar nos ténues limites tolerados pelos detentores da capacidade final de decisão. O espaço de manobra era curto. Em contraponto, o crescente entusiasmo da massa associativa pela solução que se aproximava, bem como as potencialidades que esse entusiasmo deixava antever, constituirão um forte alento para que não se esmoreça perante sucessivas barreiras e armadilhas. Aponte-se, por fim, as dificuldades advindas de ser ‘proibido’ falhar. A posição final a ocupar (III ou II divisão) dependia da prestação de uma equipa que está ‘condenada’ a vencer. Esta era uma condicionante nova – já não se tratava de replicar da melhor maneira às turmas continentais, sem qualquer consequência que não fosse o resultado do jogo em si mesmo. Agora era mais que isso: era imperioso não falhar. A entrada na II divisão fica comprometida com os resultados obtidos. Será o alargamento deste escalão, decidida por razões de todo alheias aos interesses do Marítimo, que colocará o clube nesse campeonato, a partir da época 1973/74. Até que aconteça, passadas quatro épocas, a subida à divisão maior do futebol português, registe- se quanto custou lá chegar.

Representação Corajosa A representação dos interesses do futebol madeirense junto da Federação Portuguesa de Futebol vinha contando, desde meados de 1972, com um novo e distinto intérprete – Artur Agostinho. Homem prestigiado da televisão e da rádio nacionais, à data director do ‘Record’, reconhece-se-lhe, apesar de não ser madeirense, capacidade para defender com independência e rigor as posições da Associação de Futebol do Funchal junto do poder desportivo central. Na sua primeira participação num congresso federativo, o novo delegado ‘madeirense’ defende de forma inteligente as posições e propostas da Associação do Funchal, conduzindo as decisões da reunião para uma solução que, por cá, é entendida como uma vitória – o campeão da Madeira da época 1972/73 disputará a ‘liguilla’ III/II divisões, tendo direito a, na época seguinte, participar no campeonato nacional da divisão que a classificação na prova ditar.

Todos Habilitados Os clubes da divisão de honra do futebol madeirense ficam, assim, todos habilitados à disputa do acesso às provas nacionais. Era a solução possível, apesar de ter sido o Marítimo que declarara inequivocamente e desde sempre a sua total disponibilidade para se integrar nessas provas. Mesmo que tivesse de começar pela III divisão, o clube estava disposto a correr o risco de uma integração modesta, distante da consideração que entendia merecer o seu historial e mais arriscada do ponto de vista das receitas a realizar. Esta era uma posição de fundo, genuína, sincera. O Marítimo nem pretende que essa sua participação seja aceite como ‘uma representação da Madeira’. O que se pretende é que o clube possa exercer o direito de ser mais um dos clubes concorrentes a essas provas nacionais. Era a assunção clara de se afirmar com dimensão nacional.

Aliança N-S-U Mas era também a resposta às promessas, nunca concretizadas, de fusão dos outros três clubes funchalenses que participavam na divisão de honra do futebol madeirense – Nacional, Sporting e União. Os adeptos do futebol ‘brincam’ com semelhança da sigla do prometido ‘NSU’ e a marca de um automóvel ligeiro que, no momento, está em alta… O Marítimo não se opõe a esse objectivo dos seus rivais – apenas não lhes reconhece o pretendido estatuto de ‘clube representativo’. A eventual participação do ‘NSU’ em provas nacionais, ou a participação de qualquer outro clube, devia ser sempre entendida como a de mais um concorrente, neste caso da Madeira, às ditas provas.

domingo, junho 20, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 9

Festa de Grisanela

Abril recebe o Belenenses, de novo por conta do centro Paroquial de Fátima. Um empate (2-2) e nova derrota por 4-0 foram os resultados. Na festa de despedida do guardaredes Sebastian Sanchez Grisanela, o guarda-redes canariano que defende a baliza do Marítimo há seis anos, registam- se dois confrontos (19 e 21 de Junho) com o Las Palmas. As duas partidas pautam-se pelo equilíbrio e acabam empatados com números iguais: 2-2. Rui Rodrigues, da Académica, e Lemos, do Porto, devidamente autorizados pelos respectivos clubes, abrilhantam o cartaz, alinhando pelo Marítimo.
Passos decisivos

A 19 de Setembro de 1971, praticamente dois anos depois do líder do Governo da República, Marcelo Caetano, ter visitado a Madeira e entregue ao Marítimo a taça com o seu nome, mercê da vitória sobre o Nacional, por 2-1, é a vez de Américo Tomáz, visitar a Madeira. O então Chefe de Estado aproveita a oportunidade para impor no estandarte verde-rubro a insígnia de ‘Membro Honorário da Ordem de Benemerência’, com que o clube fora agraciado por proposta do Governo nacional. Momento tão solene justificava um grande encontro de futebol. Solicita-se que o Benfica salde a dívida. Os lisboetas trazem aos Barreiros algumas das suas principais estrelas (Humberto Coelho, Shéu) em conjunto com reservistas, mas conseguem impor um 2-0 indiscutível.
Última participação

A época seguinte (1972/73) traz a última participação do Marítimo nas provas regionais com a sua equipa de honra – a deliberação da Federação Portuguesa de Futebol no sentido do campeão da Madeira disputar, no final da época, a ‘liguilla’ III/II Divisões, abre caminho à concretização do sonho maritimista. Como se fosse a mais merecida festa de despedida do campeoníssimo da sua terra- -mãe, a 16 de Maio de 1973 realiza-se nos Barreiros, perante 16 mil espectadores, um novo Marítimo – Benfica. Desta vez, honrando finalmente os antigos compromissos perante aquele que, em breve, será parceiro regular de disputas nacionais, os benfiquistas apresentam- se no Funchal na máxima força. E impõem um 4-0 construído por ‘Eusébio e companhia’ … O resultado não assusta os maritimistas. Estavam já assumidas as responsabilidades (as normais e as impostas) e o ingresso nas provas nacionais era irreversível. Nesta caminhada final vai destacar-se a capacidade de iniciativa do Marítimo e a assunção dos riscos que só um passado glorioso e uma grande confiança no futuro podiam alimentar.

quinta-feira, junho 17, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 8

Grandes experiências

Sporting e Benfica fazem parte deste lote de equipas que o Marítimo foi enfrentando. Ambos apresentamse no Funchal em missão de solidariedade – as receitas dos jogos destinam- se às obras do centro Paroquial de Fátima. A 9 de Março de 1969, os ‘leões’ de Lisboa, com uma equipa recheada de ‘vedetas’ do futebol nacional (Damas, Hilário, Pedro Gomes, Chico, Marinho, etç), impõem um derrota por 5-0. O Marítimo falha duas grandes penalidades e quem assistiu ao jogo fica com a sensação de que os números finais são exagerados… … e susceptíveis de correcção, como acontecerá frente ao Vitória de Guimarães, na Páscoa seguinte. 3-1 e 2-0 sobre uma das mais fortes equipas continentais da época, são alento para novas provas.
Resultados entusiasmantes

Seguem-se, já no início da época 1969/70 uma derrota (1-0) e um empate (1-1) com o Barreirense, resultados equilibrados com uma vitória (2- 1) e um empate (0-0) com o Varzim, à data (Dezembro de 1969) terceiro classificado do campeonato nacional. Finalmente, o Benfica. 29 de Março de 1970. Marítimo, 2 – Benfica, 2; na desforra, dois dias depois, os lisboetas mandam vir três jogadores que tinham ficado na capital (Torres, Raul Águas e Matine) e impõem um 2-0. Experiências gostosas, animadoras, que enchem de orgulho e esperança todos os maritimistas. No caso do Benfica, esclareça-se que estes jogos ainda não têm nada a ver com a ‘dívida’ pelas transferências de Nelson e Feliciano. A receita da partida voltou a ter como destino o Centro Paroquial de Fátima.
Rumo claro

A orientação está traçada e aponta para a preparação da equipa com adversários de nível nacional. Por aí se iam acumulando receitas importantes e, igualmente, preparando a futura participação nacional. No início da época 1970/71, acontece o ‘triangular’ Marítimo - Nacional – Boavista; o melhor resultado madeirense é a derrota tangencial do Marítimo (3-2) com os forasteiros. Janeiro de 71 traz quatro partidas. As duas primeiras acabam com vitórias do Farense (3-2 e 1-0); as últimas duas acontecem frente ao Olimpique de Lyon; na primeiro confronto, o Marítimo integra Petita, mas não impede a derrota (2-1), imposta pelo adversário, reforçado pelo ex-benfiquista Coluna; no último, as duas ‘vedetas’ alinham pelos verde-rubros e a derrota é de novo tangencial, mas mais magra: 1-0. Março seguinte oferece futebol dinamarquês. O Nykobing empata a uma bola, mas impõe derrota pesada no último encontro (4-0), fazendo valer um poderio atlético a que os verde-rubros não estavam habituados.

terça-feira, junho 15, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 7

Sem clube único

A reconquistada supremacia no futebol regional coloca ao Marítimo confrontos com as mais fortes equipas continentais – para a Taça de Portugal, ficará célebre a eliminação da poderosa formação do Leixões, na época 1967/68. Mas as provas dentro de campo não eram suficientes. E a porta que se abria para a admissão de um clube madeirense no campeonato nacional eram as da III Divisão. O Marítimo entendia merecer mais, embora para tal não quisesse ser mais que o Marítimo de sempre. Por isso, no jantar comemorativo do 58º aniversário do clube (1968), Adelino Rodrigues, historia a vida da colectividade, caracteriza a sua mística e esclarece que "o Marítimo, por tudo quanto tem realizado em prol do desporto é um clube único, o que não significa ser «o clube único»". A subtileza marca o distanciamento em relação às propostas de fusão das equipas da divisão de honra do futebol madeirense, sugerida por diversos sectores desportivos. A repulsa pela ideia ‘fusionista’ percorre a colectividade verde-rubra e destaca o clube dos principais rivais.
Provas de primeira

Ao mesmo tempo que desenvolve uma série de iniciativas que visam a entrada na II divisão nacional, o Marítimo mantém intensa actividade da sua equipa de Honra, trazendo à Madeira os principais clubes nacionais. Em Outubro de 1968 bate o primodivisionário Atlético por 2-1. Dezembro do ano seguinte é o momento da recepção ao Grupo Desportivo da CUF, uma das mais fortes equipas portuguesas do momento. Uma derrota (0-1) e um empate (1-1) forçam o treinador da formação continental a admitir:
"A vitória (no primeiro jogo) cairia bem ao Marítimo, que foi sem dúvida alguma a melhor equipa sobre o terreno. Surpreendeu-me deveras esta equipa que tem uma capacidade técnico-física superior a algumas equipas continentais. (...) O Marítimo tem equipa não só para a 2ª divisão nacional, como também para a 1ª, pois como atrás disse, há lá equipas que não valem metade".
Passagem amarga

Porém, na noite da passagem desse ano, em confronto com a Académica, a formação verde-rubra, menos habituada que os ‘estudantes’ a jogar em ambiente invernosos, consente uma derrota por 5-1. A receita de bilheteira – praticamente nula – é tão amarga como a derrota. Tudo parece diluviano, nesse fim de ano de intempérie tão forte que obriga a adiar a queima de fogo e os paquetes que deviam presenciar a passagem de ano do Funchal rumam para Canárias. Os prejuízos ‘sugam’ as receitas angariadas nos jogos com a CUF, no início do mês. Mas é preciso manter a caminhada de confronto com as formações continentais, ir medindo a valia real da equipa, na certeza de que está para breve o momento em que se abrirá a porta das provas nacionais.

domingo, junho 13, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 6


Nada de fusões

A 1 de Setembro deste mesmo ano, Vítor Santos, chefe de redacção d´ ‘A Bola’, dá uma entrevista ao Diário de Notícias do Funchal, abordando a problemática da participação da Madeira no campeonato nacional de futebol. Destacando o facto do futebol madeirense se ter atrasado em relação ao continental, no qual se dão os passos decisivos para a total profissionalização, o conceituado analista ‘põe o dedo em várias feridas’:
"O caso da Madeira, não sendo de fácil solução, é todavia susceptível de resolver-se num futuro não muito distante. Até porque, em certa medida, é um caso particular. E os casos particulares requerem soluções particulares também. Para tanto, o Passado Histórico do Futebol da ilha pode ser decisivo e determinante dum certo movimento de solidariedade. Depois, a proximidade relativa do continente, que dista apenas uma hora e pouco de voo, encoraja qualquer iniciativa. (…) Eu não sou, por princípio, contrário às fusões. Simplesmente a experiência mostra que os movimentos que nesse sentido foram empreendidos em Portugal, resultaram no mais desolador dos malogros. (…) No caso concreto da Madeira não preconizaria uma vez mais a fusão dos clubes principais para formar uma equipa representativa. Não. Não sou madeirense, mas prezo demais o passado histórico das colectividades da nossa terra, para contemporizar com tal movimento. Não digo que não resultasse a princípio. Há sempre a psicose da novidade … Mas, em breve, entrarse- ia numa rotina, numa letargia ainda maior. Nada de fusões portanto. A representação da Ilha estaria a cargo da colectividade local que conquistaria em campo a honra de se bater pela sua terra e ser integrada num Campeonato Nacional. (…) Custar-me-ia imenso que uma equipa da ilha, descendente em linha directa dos homens de 1926, tivesse de conquistar na 3ª Divisão uma posição a que então logrou alcandorar- se depois de desbancar os melhores conjuntos nacionais. Seria iníquo. (…) É uma «cartada» que merece ser jogada e, a virem a coroar-se de êxito tão louváveis intentos, lucraria o futebol madeirense. Talvez se rasgassem novos horizontes para as equipas locais, e o próprio público seria beneficiado (…). Reflexamente, o próprio turismo da ilha seria incrementado. Sabe-se que o desporto é, na hora que passa, o melhor veículo de propaganda turística. A afirmação não necessita ser justificada, mas, se tal se tornasse necessário, havia uma mão cheia de exemplos a citar. E o turismo da Madeira, que tem sido um turismo de luxo, via assim uma porta aberta para a democratização que, mais dia, menos dia, terá de ser seriamente encarada. (…)"
Nada de fusões (continuação)

Emanuel Freitas, capitão desta equipa do Marítimo que vem recolocando o clube no lugar do futebol madeirense que por tradição lhe pertence, é também indagado sobre esta questão da participação madeirense num campeonato nacional. A palavra do ‘capitão’ não podia ser mais esclarecida, quando lhe perguntam se gostaria de ver a Madeira representada por um clube nas provas nacionais:
"Se gostaria! Mas que eu fizesse parte, se tivesse valor para isso. De preferência o Marítimo a qualquer outro, porque já tem o seu nome feito lá fora, como tive oportunidade de verificar nos dois anos que residi em Lisboa".
É por esta altura que Ilídio de Sousa (Petita) é transferido para o Vitória de Setúbal. O delegado do clube sadino viera à Madeira, participara no jantar das comemorações de mais um aniversário do Marítimo e regressou ao continente com o contrato assinado daquele que ia sendo avaliado como um dos melhores rematadores do futebol português.
Mais pobre

O Marítimo considera-se mais pobre. Aliás, o dirigente sadino confessaria às páginas d´ ‘A Bola’ que "se o normal do Petita é o que o vi fazer na passada quarta-feira contra o Varzim, o Vitória não deveria pagar ao Marítimo quatrocentos contos, mas sim quatro mil". O Marítimo batera os poveiros por 5-2 – uma vitória inesperada e brilhante… O caso é exemplar – limitado às provas regionais, o Marítimo pode bater-se dentro de campo com os grupos continentais, mas a simples missão de segurar os frutos da sua actividade formativa estará sempre sujeita ao poderio dos clubes profissionais e ao legítimo anseio dos jogadores em alcançar outro pedestal. O mesmo já sucedera, como se viu anteriormente, com as saídas de Nelson e Feliciano para o Benfica. As reclamações verde-rubras pelo ‘assalto’ continental à margem das regras de transferência de jogadores, acabaram com acordo entre os clubes. Mas o Benfica tardava em honrar o compromisso de deslocar a sua equipa de Honra à Madeira para efectuar um jogo com o Marítimo, com receita a favor dos madeirenses.

quinta-feira, junho 10, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 5

Direitos pagos

Conquista árdua. É preciso garantir 100 contos de receita (a Associação foi intermediária da garantia do Marítimo), assegurar o pagamento da deslocação da equipa continental à Madeira, pagar-lhe o hotel (um bom hotel, exige-se), e oferecer idêntico tratamento ao árbitro da partida. Nenhum clube continental se mostrou disponível para que a segunda ‘mão’ da eliminatória pudesse ser disputada no Funchal. É preciso ‘engolir’ a imposição de jogar primeiro na Madeira, ‘não vá o diabo tecê-las’ …
Mais adiante

Em meados da década de 60, quando o Marítimo volta à ribalta do futebol regional, esta conquista estava ultrapassada. A generalidade dos desportistas madeirenses estavam convictos de que só a participação num campeonato nacional regular poderia facultar os meios de desenvolvimento que o futebol regional exigia. Era preciso ir mais adiante. E, para tal, encontrar uma fórmula de escolha da representação madeirense no futebol nacional. Obviamente, se essa fórmula tivesse por base o historial dos clubes madeirenses potenciais interessados, o assunto estaria inquestionavelmente resolvido a favor do Marítimo…
Números claros

… como se fazia questão de ‘explicar’, por altura da passagem das Bodas de Ouro da Associação de Futebol do Funchal (1966), através da ‘contabilidade’ dos prélios organizados sob sua égide. Eram números claros, que evidenciavam uma longa e consistente superioridade do Marítimo sobre os clubes que nesta data constituíam os seus principais adversários, como se pode ver pelo quadro dos jogos entre o Marítimo e esses clubes, no período entre a fundação da Associação e as suas Bodas de Ouro (1916/1966). Pouco tempo depois desta publicação, aquando do primeiro jogo entre clubes madeirenses que se realiza sob a luz artificial do Estádio dos Barreiros, o Marítimo, como que a sublinhar elucidativamente esse ascendente, bate o Nacional por 10-3. Foi a 5 de Julho de 1967, na festa de homenagem a Francisco, o funcionário que servia o clube há 42 anos.

terça-feira, junho 08, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 4


Talvez, nem por isso

Mas também há posições dúbias. O Sporting lisboeta ‘esconde’ a sua opinião, limitando-se a garantir que aguarda que a Federação de Futebol lhe solicite parecer sobre o assunto. A direcção do Belenenses informa que dedicará à matéria a sua melhor atenção; o Atlético afiança que está a ‘estudar’ e que se pronunciará "logo que sejam encaradas as premissas que porventura se esbocem sobre o caso". O Oriental deixa escapar o que lhe vai na alma (e na de outros): "Parece que é de considerar a vossa sugestão, e depois do estudo da proposta apresentada à Federação por intermédio da vossa Associação, não teremos dúvidas em patrocinar a vossa pretensão, se a mesma se afigurar viável". O ‘parece’ inicial e o ‘se’ final diziam tudo…
Recusa inexplicável

Em Maio de 1952, apurado uma vez mais para disputar a Taça de Portugal em representação das ilhas, o Marítimo propõe condições financeiras especiais ao adversário – o campeão Sporting de Portugal – para que aceite disputar uma eliminatória no Funchal. Recusa total. Evitar o confronto na ‘casa’ do campeão das ilhas e o incómodo de uma deslocação julgada sempre ‘fácil’ e ‘justa’ quando se tratava de ser os ‘de cá’ a viajar, é o ‘sumo’ da posição dos lisboetas. Mas é através deste tipo de propostas e iniciativas, que secundam a intervenção no plano oficial, que a luta pela plena participação nas provas nacionais vai ganhando novas formas e (alguns) aliados.
Esperança tornada realidade

A 8 de Outubro deste mesmo ano, o presidente da Associação do Funchal, eng. João Antunes de Sousa, manifesta a convicção de que seria possível, nessa época, ver pelo menos uma das eliminatórias da Taça ser jogada na Madeira. Álvaro Reis Gomes – sempre ele! –, agora a residir na capital e delegado da Associação junto da Federação, voltará a desempenhar um papel decisivo no desfecho do congresso federativo que vai tornar realidade as palavras do presidente associativo e dar vida às aspirações do Marítimo. Estamos em Maio de 1953. Finalmente a Madeira passaria a dispor de um pequeno direito … que era uma grande vitória – disputar uma das ‘mãos’ da eliminatória da Taça de Portugal em ‘casa’.

domingo, junho 06, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 3


Novo contencioso

Genericamente, este será o enquadramento da participação da Madeira no campeonato de Portugal; a alteração do figurino das provas nacionais de futebol – com a institucionalização de um campeonato regular e da Taça de Portugal – ocorrida na época 1939/40, vai relançar o contencioso. A exclusão do representante das Ilhas dessa nova prova regular – o campeonato – remete a participação dos grupos insulares em provas nacionais para as eliminatórias da Taça. O desagrado pela fórmula encontrada é grande, mas não se vislumbram soluções práticas para outro tipo de participação. Acima de tudo, subsiste a profunda convicção de que continua a ser uma injustiça o representante das ilhas ter de disputar as eliminatórias da Taça fazendo ‘casa’ em Lisboa.
Jogar em Casa

Daí que a aspiração à realização de jogos nacionais oficiais na Madeira passe a ter um lugar importante nas reivindicações do Marítimo junto dos poderes do futebol. Na década de 50, enquanto a Associação de Futebol do Funchal coloca a questão junto da Federação, o Marítimo toma a iniciativa de consultar os clubes potencialmente abrangidos na matéria.
Sim, Sim...

O Benfica é claro: "Desportiva e logicamente, entendemos que ao representante insular sejam dadas as mesmas condições e regalias que são previstas para todos os concorrentes. Achamos muito justo que todos os participantes à Taça de Portugal sejam postos em pé de igualdade", lê-se na missiva de resposta ao inquérito verderubro. O Porto anui: "Sempre considerámos pretensão justa, pelo que não temos qualquer hesitação em dar a nossa concordância e o nosso modesto patrocínio". Académica, Sporting da Covilhã e Barreirense dão respostas igualmente favoráveis.

quinta-feira, junho 03, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 2

Batalha inicial

Coube a Álvaro Reis Gomes dar testemunho público dessa insatisfação, iniciando a batalha pela presença do clube campeão da Madeira no campeonato de Portugal. Tudo começa quando surgiram, na comunicação social da época, referências à organização da prova. Estudante de Direito em Lisboa, o jovem primeiro secretário da direcção do Marítimo, assume com clareza e objectividade, posições que terão o condão de alterar o rumo da organização do futebol nacional. Através de carta enviada ao ‘Sport de Lisboa’, publicada no dia 1 de Abril de 1922, Álvaro Reis Gomes, aplaude ‘a brilhante propaganda’ que era feita à organização dos campeonatos de Portugal, mas não se coíbe de ‘por o dedo na ferida’:
"O facto a que me refiro é o seguinte – em poucas palavras – : o esquecimento a que foi votado o futebol madeirense no último artigo de fundo de ‘O Sport de Lisboa’, onde se bordam palavras de louvor e de incentivo em redor de Faro, de Évora, de Braga e de Coimbra. E esse esquecimento não se justifica, meu caro camarada e amigo. ‘O Sport de Lisboa’ sabe muito bem que na Madeira se pratica o futebol, e não será seu intuito, decerto, restringir ao continente o direito de comparticipação em certamens nacionais. E unicamente no caso de se tratar da efectivação dos Campeonatos continentais é que poderse- ia por de parte as ilhas. Pois já nas provas metropolitanas, quanto mais nas nacionais, como as projectadas, tal gesto seria uma violência e um absurdo inqualificáveis. Lembro, pois, ao meu amigo que de futuro quando no vosso estimado jornal for ventilada a questão dos Campeonatos Nacionais de Futebol, - e sê-lo-á certamente por mais de uma vez ainda –, a Madeira, a minha terra, seja incluída no número dos pretensos concorrentes a tão simpáticas quão necessárias disputas. Em favor da comparticipação do futebol madeirense nos campeonatos nacionais razões de sobra existem, além do simples e fundamental motivo exposto atrás. É que na decantada «Pérola do Atlântico» não só se cultiva o futebol. Este encontra-se ali desenvolvido e bastante, creia. No respeitante propriamente à prática desse desporto admirável, contamos com agrupamentos bem constituídos, de cujas linhas fazem parte elementos que em condições de agilidade e resistência física se reúnem. Relativamente a organização não ficamos nós atrás dos principais meios do País. (...) Vê, pois, o meu amigo, que não é de todo em todo acanhada a vida desportiva madeirense e que lhe assiste e me assiste o direito de pugnar pela sua comparticipação nos Campeonatos Nacionais de Futebol, que esforçados desportistas pensam organizar sob a direcção competente da União Portuguesa de Futebol".
Lapso a Corrigir

O jornalista d´ ‘Os Sports de Lisboa’ reconhece que se tratou apenas … de um lapso, a remediar em futuros artigos. Mas da parte de Álvaro Reis Gomes este tinha sido apenas o primeiro passo. E um ano depois, um ofício da Associação de Futebol do Funchal à União Portuguesa de Futebol, propõe as condições de participação do campeão da Madeira no campeonato de Portugal. Tudo tinha sido negociado entre Álvaro Reis Gomes, agora delegado da Associação junto da União, e Raul Nunes, dirigente deste organismo, nos termos que se seguem: - as despesas de deslocação do campeão madeirense ao continente e da permanência eram da responsabilidade da Associação funchalense; - as deslocações no continente eram da conta da União e seriam suportadas com as receitas dos jogos da prova; - 20 ou 25% da receita dos encontros em que o campeão da Madeira tomar parte pertenciam-lhe; - era dada autorização para disputa de jogos não-oficiais, sem prejuízo dos jogos do campeonato, que permitissem angariar receitas para ajudar a suportar as despesas da deslocação.
Casa em lisboa

A parte mais substancial dos encargos estavam por conta da Madeira. Daí a reacção – é proposto ao Conselho Geral da União que os encargos sejam repartidos em partes iguais entre a Associação e a União ou, na pior das hipóteses, nas proporções de 75% - 25%. A solução encontrada é a de cativar 15% da receita de todos os jogos da prova – mesmo daqueles em que o campeão da Madeira não participe – para constituir o fundo de suporte às despesas das viagens de ida e volta. É uma vitória histórica. Mas vem marcada com uma visão centralista: "Para tomar parte no campeonato de Portugal os grupos das ilhas tomam como sede a cidade de Lisboa", dita-se em ofício da União à Associação. Álvaro Reis Gomes luta até ao fim para que a comparticipação da União seja superior. E acaba conquistando a cativação de 30% de todos os jogos para a constituição do tal de fundo de ajuda à presença dos portugueses da Madeira no campeonato de Portugal.

terça-feira, junho 01, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VIII, Parte 1

Lutando pelos nacionais
Ultrapassada a crise que assolou o futebol verde-rubro entre os finais da década de 50 e meados da de 60, o Marítimo enceta uma luta decidida para conquistar um espaço definitivo em provas regulares do futebol português, assumindo-se como colectividade de dimensão nacional. Do centralismo das entidades responsáveis a nível nacional às atitudes dos rivais madeirenses, passando pelas posições dúbias de instituições desportivas diversas e pelas dificuldades materiais do projecto, os verde-rubros debatemse com imensos obstáculos. O caminho era, contudo, irreversível. Para que assim fosse, contribuíram, além da vontade do Marítimo, condições ‘alheias’ à realidade desportiva, de que são melhores exemplos a construção e funcionamento sempre em crescendo do Aeroporto do Funchal, o consequente aumento da actividade turística, o acréscimo nas remessas dos emigrantes, bem como uma situação política nacional que se ia caracterizando pela ‘abertura’ do regime. Os passos dados nesta fase da vida do clube são importantíssimos para a desejada integração. Mas antes que ela chegue, vejamos as raízes ancestrais dessa luta, bem como os caminhos trilhados para que o sonho se torne realidade.

Razões profundas

A aspiração dos maritimistas em participar plenamente nas provas nacionais de futebol, percorre toda a vida da colectividade e tem manifestações muitas claras desde seu o início. Uma circunstância que se compreende pelo facto da Madeira ter sido – principalmente através do Marítimo, cujo futebol chegou a ter fama de imbatível – nas duas primeiras décadas do século XX, um dos principais centros de divulgação e desenvolvimento do futebol português.
Provas insuficientes

Essa realidade não foi suficiente para que os detentores do ‘poder desportivo-futebolístico’ olhassem para a Madeira – para o seu clube campeão, o Marítimo – com justiça. O primeiro campeonato de Portugal (1921/22, vitória do Porto), não contemplou, apesar do seu vencedor ser apurado numa ‘poule’ final, a participação do representante da Madeira. Do ponto de vista dos madeirenses isso era, de todo, intolerável.

domingo, maio 30, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VII, Parte 9

Imaculada Conceição

A 3 de Outubro de 1965 acontece o primeiro ensaio de treino de conjunto com duas equipas completas no campo que o clube construíra em Santo António. Mas só a 5 de Maio do ano seguinte ali se realizará o primeiro jogo oficial, dez anos depois de adquiridos os terrenos. O adversário do Marítimo foi o Juventude Atlântico Clube, que acabou derrotado por 7-0.
Recuperação Madeirense

A conquista do título de campeão da Madeira da época 1965/66 – o 29º alcançado pelo clube em 48 disputados – é encarado com serenidade. Mas com elevado orgulho por essa equipa triunfante ser constituída, com excepção do guarda-redes, com jogadores formados no clube. Em 1966/67 a confirmação – o clube sagra-se novamente campeão da Madeira. Estava relançado futebol do Marítimo. Como o jogo da segunda oitava de Natal de 1966 deixara antever, através da vitória (3-0) sobre o Sporting de Braga, que era ‘só’ o detentor da Taça de Portugal ... Não foi uma vitória isolada. No Domingo de Páscoa do ano seguinte, o primodivisionário Belenenses é derrotado nos Barreiros por 3-1. E na passagem do 57º aniversário, o convidado Varzim sofre uma derrota que se escreve com números que, no futebol destes tempos, já vão ficando fora de moda: 5-2. Estavam reabertas as portas do sucesso. A luta pela presença definitiva nas competições nacionais vai entrar numa fase decisiva ...

quarta-feira, maio 26, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VII, Parte 8


Bodas de Ouro

Estamos no ano das Bodas de Ouro. O Marítimo vive, no futebol, um dos mais difíceis momentos da sua equipa de futebol, em resultado do fraco desempenho da sua equipa de honra. O rival União já iniciou a sua caminhada para a conquista de sete títulos consecutivos de campeão da Madeira. No Marítimo trabalha-se para o futuro. E salienta-se que o desânimo da massa associativa, é um problema tão grave como os fracos resultados da equipa de honra.
Comemorações à altura
É com esse estado de espírito que se comemoram as Bodas de Ouro. Uma Comissão de Honra que engloba as principais entidades civis, militares e uma Comissão Central, liderada pelo eng. José Adolfo Pinto Elyseu, põem em marcha, com inúmeras colaborações, um ambicioso programa. Nova ‘Feira Popular’, a edição de um número especial do boletim do clube, uma sessão solene no Teatro Municipal, uma orgulhosa exposição dos trofeus, um festival no Estádio dos Barreiros e a restauração da sede primitiva do clube, são as partes mais destacadas da série de eventos que animou a colectividade e a sociedade madeirense.
Assaltos Lisboetas

Entretanto, o esforço de relançamento do futebol verde-rubro começa a dar os primeiros resultados. Surgem, nas camadas mais jovens, jogadores de bom nível. E surgem também novas contrariedades. Contra tudo o que se encontrava estipulado na regulamentação em vigor, Nelson é transferido para o Benfica, através de um execrável parecer do Director Geral dos Desportos. O jovem madeirense estava prestes a ser integrado na primeira categoria verde-rubra, era amador e pertencia à escola de aprendizagem do clube desde 1956. A cobiça benfiquista despertara com a participação do jogador nos treinos da selecção nacional de juniores. Foi um rude golpe, tanto mais que, no apogeu da crise da sua equipa principal, o Marítimo disputa, na época 63/64, o jogo de ‘passagem’ com a promoção, por ter sido o último classificado do campeonato da Madeira. Virgílio (para o Belenenses) e Feliciano (também para o Benfica), foram outros casos que fizeram correr muita tinta, tanta era a injustiça advinda da irregularidade das suas transferências para os clubes continentais.
Feira prolongada

Com os sucessivos inêxitos futebolísticos a persistirem, o Marítimo procura por todos os meios dinamizar a sua vida associativa e angariar fundos que permitam responder às muitas solicitações que enfrenta. A Feira Popular em 1964 terá a duração de três meses e traz à Madeira as ‘estrelas’ nacionais: Ana Maria, Rossano, Raul Solnado Luiz Mariano; Maximiano de Sousa (Max) é um dos artistas mais admirado; pelo meio a famosa cançonetista espanhola Marisol encanta o Funchal. Estes são também os tempos em que, como que a compensar as ‘desgraças’ do futebol, a actividade das modalidades amadoras (nomeadamente o Hóquei em Patins) cativa a atenção de um considerável número de sócios.

segunda-feira, maio 24, 2010

100 Verde-Rubros Anos - Capítulo VII, Parte 7


Sporting na Madeira

Em Junho de 1958, a direcção verde-rubra, interpretando o desejo dos desportistas locais por grandes espectáculos desportivos que agitassem o meio regional e servissem de avaliação ao futebol do clube, convidou o campeão nacional – Sporting – a deslocar-se à Madeira A empresa custa 140 contos: 70 de ‘cachet’, 40 para transportes aéreos, 20 para organização e outras despesas diversas, tudo a cobrir num só jogo. Era arriscado. Mas um mês antes, a receita do Marítimo - Porto, na primeira ‘mão’ dos oitavos da Taça de Portugal, fora de 230 contos… O encontro realiza-se a 15 de Junho, no Estádio dos Barreiros e acaba com um empate a uma bola. Mas o resultado foi melhor que a receita, insuficiente para cobrir a despesa.
Nova Feira

Este desaire só intensifica a vontade posta na organização da segunda ‘Feira Popular do Marítimo’, que vai funcionar de 31 de Agosto até 22 de Setembro. A receita era ‘segura’, dada a grande adesão que a iniciativa merecia. O certame fica incluído no programa das comemorações do 48º aniversário. Mas a grande inovação da época é a revista ‘Rosário de Cantigas’, musicada pelos irmãos Freitas, a qual terá mais de dez apresentações, com a lotação do Teatro Municipal esgotada. O sucesso é tal que se faz uma exibição com receita para o ‘Dia do Preso’. No Marítimo comenta-se que, desta feita, não é a equipa de futebol a ser usada para fins de benemerência, mas não deixa de ser uma iniciativa verde-rubra a ter os mesmos fins.
Arranque das obras

A 29 de Setembro acontece a cerimónia de arranque das obras para a construção do campo de jogos do Marítimo. A recolha de fundos decorre com entusiasmo entre os sócios, mas os valores angariados estão ainda longe dos montantes necessários. Uma ‘ajuda’ aos cofres do clube é a cedência de ‘Chino’ ao Benfica, por duas épocas – ao fim das quais terá de voltar ao Marítimo. O ‘empréstimo’ vale cinquenta contos. Entretanto, a secção de juniores dá prejuízo, e a respectiva comissão, sentindo-se injustiçada, demite-se em Janeiro de 1959.
Novo presidente

O estado do futebol do Marítimo continuava a merecer críticas dos sócios e era tema de debate entre os apaniguados verde-rubros e os adeptos das restantes colectividades. A direcção está pressionada pelas circunstâncias e acaba substituída em Janeiro de 1960. O Dr. Henrique Vieira da Luz assume o cargo de presidente do clube. Era um dirigente que gozava de largo prestígio, merecia o apoio generalizado dos sócios e reunia o consenso necessário para estabilizar a vida da colectividade.