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quarta-feira, junho 27, 2012

Bola Fora #18: Quadrado ao meio para conter a fúria espanhola


por Octávio Lousada Oliveira


Esta quarta-feira a selecção nacional vai ter de regressar à génese do seu futebol, ao arquétipo sobre o qual a sua filosofia se foi sedimentando para poder vencer a Espanha. E não me refiro à postura do Portugal dos pequeninos que amiúde se evoca mas, tão-só, a uma forma de encarar a partida. Perceber que a bola não queima e tratá-la como uma amiga.

É no meio-campo que reside a grande virtude da Roja e é justamente aí que Portugal mais fica a dever à selecção do país vizinho. Vicente del Bosque continua a ser um homem questionável – como qualquer outro -, mas sublinho que fez da fraqueza aparente dos seus comandados (a ausência de David Villa e da capacidade de concretização que acrescenta) uma força, isto é, estendeu o carrossel até à linha de ataque. Iniesta descaiu declaradamente para o flanco esquerdo, colou o Messi dos pobres, David Silva, à direita e improvisou um 9,5 com Cesc Fàbregas. Perdeu profundidade e acutilância em relação ao onze do Mundial 2010, mas ganhou mais (!) capacidade de circulação. Inócua, por vezes – o que também é importante recordar -, mas com uma qualidade e uma precisão impressionantes.

Continua a jogar com um falso duo de médios-defensivos, uma vez que, em teoria, seria Xabi Alonso a juntar-se a Sergio Busquets mas, na prática, é Xavi (o homem que define a métrica da poesia espanhola) a baixar no terreno e a pegar desde cedo no jogo, aproximando-se do companheiro do Barcelona no início da construção.


A partir daí, é vê-los “tocar”, “tocar”, “tocar”, até à exaustão do adversário. À mínima brecha, surge um passe de ruptura e aparece um “qualquer” Silva, Iniesta ou Fàbregas na cara do guarda-redes adversário.

Mas José Mourinho tem razão. Esta é uma das (muitas) formas possíveis de conceber o jogo. Não é a única. Os tudólogos do Google é que não conhecem outras e deixam-se levar pelos modismos da Sport TV ou dos jornais catalães. A viagem de Lisboa ao Porto pode ser feita de diversas maneiras. De automóvel, de comboio e, eventualmente, de avião. Uma mais autónoma, outra mais económica e outra mais rápida. Mas qualquer delas tem alguma beleza subjacente.

Portugal pode, perfeitamente, terminar o encontro de Donetsk com 30% de posse de bola e, mesmo assim, não conceder veleidades à armada espanhola. Difícil mas não impossível.

Determinante será o posicionamento de Nani. Terá de ser ele a juntar-se a Veloso, Moutinho e Meireles quando Portugal precisar de uma segunda linha defensiva a quatro. Mais: terá de ir até ao fim do mundo com Jordi Alba, porque João Pereira já terá trabalho de sobra com Iniesta. Ronaldo, esse, convém que esteja mais livre para as transições rápidas e para “empurrar” os elementos mais recuados da Espanha para a sua área ou, pelo menos, para os amedrontar quando ousarem sair da zona de conforto com a bola nos pés, como faz regularmente Piqué, por exemplo.


Por último, uma palavra para Paulo Bento. Qualquer mensagem motivacional para este desafio será redundante. A vontade de vencer estará certamente em patamares elevadíssimos e uma palavra errada nos minutos que antecedem o jogo poderá ter um efeito desastroso. No entanto, o antigo treinador do Sporting joga nestas meias-finais a afirmação internacional. A jovem raposa pode ser promovida a predador táctico de primeira linha se conseguir cercear a fúria espanhola.

Nesta batalha em que história, orgulho e paixão descerão ao relvado, outro ponto de interesse passará por sabermos se a Bola de Ouro vai regressar à Madeira. Para bem de Cristiano Ronaldo e, acima de tudo, deste Portugal, que de pequenino só tem a síndrome, vamos acreditar que sim.

publicado em desacordo.net

domingo, maio 06, 2012

Bola Fora #17: José Mourinho patenteou o futebol


por Bruno Fernandes


A economia não é, de todo, o meu forte. Mas aventurando-me por caminhos pelos quais me arrisco a tropeçar, quero falar de José Mourinho como um investimento. Um enorme investimento. É especial, é português e a sua carreira permite-me afirmar que qualquer equipa que o tenha arrisca-se a entrar na história. 

No FC Porto, um clube que nos últimos 30 anos colocou na sua génese as partículas dos triunfos, Mou conseguiu juntar as peças-chave para que, em dois anos, Pinto da Costa pudesse acrescentar uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões à “sua” vasta coleção de troféus. Fez o mesmo no Chelsea: com outros elementos, transformou os meios – de Roman Abramovich – que tinha à sua disposição em fins e devolveu um título aos blues que fugia desde 1955.
Henricartoon.
É preciso mais? Claro que é. A saída de Londres não se fez pela porta pequena, ao contrário do que muitos escreveram. Chegou a Itália, afinou um veículo que, internamente, tinha acabado de sentenciar uma Juventus, já de si fraca com o escândalo do Calciocaos, e só parou em Madrid. Calma, na época 2009/2010 “apenas” esteve lá na condição de vencedor de uma Liga dos Campeões na qual existiam equipas com uma qualidade semelhante ou superior ao Inter. 

Mas José Mourinho é isto mesmo. É complexidade e trabalho. Muito trabalho. Tem o dom de saber conciliar a parte técnica com a parte pessoal, personificada nas relações que tem com os seus jogadores. E atenção, há quem tenha passado por si. E, por isso mesmo, há quem o ame, assim como há quem o odeie.

No Real, fez o que muitos tentaram e ninguém conseguiu. Colocar um ponto – a ver vamos se é final – a uma hegemonia do Barcelona com processos otimizados e numa tendência muito dele: as suas equipas exponencializam-se um ano após da sua chegada. Tudo isto para concluir que o Special One só terminará o seu ciclo quando, infelizmente para o futebol, terminar a carreira. Pois olhando para nomes como Helenio Herrera ou Rinus Michels, percebemos que o contributo do técnico merengue para a modalidade é diferente de quem a reinventou: é mostrar, a cada jogo que passa, o porquê deste mover multidões, emoções e por fim... cifrões.
NOTA: O jogo de ontem entre Real Madrid e Granada (2-1) não está contabilizado na infografia.
in record.pt

terça-feira, março 27, 2012

Bola Fora #16: É possível, Benfica


por Bruno Fernandes


O futebol inglês seduz-me. Bola cá, bola lá, um popularismo da modalidade que carateriza bem a Premier League e a forma como as equipas que a compõem abordam os jogos. Na terça-feira, a melhor liga do Mundo, personificada no Chelsea de Di Matteo, viaja até à Luz em busca da validação de uma pré-concebida superioridade em relação aos pupilos de Jorge Jesus.

Mas é possível, Benfica. É bastante possível. O futebol inglês seduz-me e se o faz é na sua totalidade. Os blues podem – e devem - ser a exceção a uma regra que esta temporada tem caído por terra. A dupla de Manchester passou de favorita a surpresa negativa na Liga Europa e o apuramento dos londrinos, quer na fase de grupos quer nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, foi alicerçado numa enorme vontade de vencer e, posteriormente, na lufada de ar fresco que uma mudança de treinador costuma trazer.


Mas não os substimemos. Os últimos 5 jogos não são apenas fruto de uma qualquer brisa de mudança. A união do grupo e a readaptação tática implementada pelo técnico italiano – de um 4x3x3 para o 4x2x3x1 que exalta um maior equilíbrio nos processos da equipa – foram fatores essenciais para que este novo (velho) Chelsea voltasse a entusiasmar.

Mas não substimem o Benfica. United, Liverpool e Arsenal já cairam com algum estrondo aos pés dos encarnados e, tal como o futebol inglês, as saudosas noites europeias também me seduzem. Se calhar porque as equipas portuguesas também me habituaram a acreditar que contraiar o favoritismo é mostrar que somos um país com equipas talhadas para grandes momentos. E ou muito me engano ou vem aí mais um.

Liga dos Campeões: Quartos-de-Final (1.ª Mão)
SL BENFICA x CHELSEA FC
Estádio da Luz, às 19:45 (RTP 1)
Árbitro: Paolo Tagliavento (ITA)

Equipas Oficiais:

Sport Lisboa e BENFICA
1. Artur
14. Maxi 4. Luisão (C) 33. Jardel 3. Emerson
6. Javi García 28. Witsel
8. Bruno César 10. Aimar 20. Nico Gaitán
7. Cardozo


CHELSEA Football Club
1. Cech
19. Paulo Ferreira 4. David Luiz 26. Terry (C) 3. Cole
7. Ramires 12. Mikel 16. Meireles
10. Mata 9. Torres 21. Kalou
(actualizado às 18:57)

terça-feira, março 13, 2012

Bola Fora #15: Prémio ao demérito


por Hélder Teixeira


Aprecio bastante o Manuel Cajuda. Sobretudo pelo facto de ter conseguido, em 2003/2004, apurar o Marítimo para a Taça UEFA. É do domínio público a crise desportiva e financeira que a União de Leiria atravessa, mas apesar das contrariedades, Manuel Cajuda, desde que assumiu as funções de técnico da formação do Lis, tem vindo a garantir que o clube não será despromovido.

Para quem acompanha minimamente a Liga Portuguesa, até à tarde de ontem poucos acreditariam que os leirienses conseguissem assegurar a permanência. Mas a recém empossada direcção da Liga decidiu alterar as regras do jogo quando ainda faltam 8 jornadas por disputar. Ninguém desce à Liga Orangina, e parece que Cajuda tinha razão. A confirmar-se esta decisão o Leiria nem qualquer outro clube não desce.

O que aconteceu ontem na assembleia geral da Liga é bem mais grave que um penálti por marcar ou um golo em fora-de-jogo num Benfica x FC Porto. O que aconteceu ontem é adulterar a verdade desportiva. Para os clubes que ainda lutam pela manutenção a partir de agora perder um jogo não será problema. Ou seja, para essas equipas os 8 jogos que faltam são apenas formalidade. Para cumprir calendário.

As contas do título e da Europa ainda não estão decididas e as formações que ainda lutam por estes objectivos vão ter que jogar com outros conjuntos que poderão ou não a partir de agora ter qualquer... objectivo. E se esta ideia for mesmo para a frente a Liga Zon Sagres 2011/12 perde toda a credibilidade. Uma mentira que é resultado da sede de poder.


Se querem alargar de 16 para 18 clubes, a "Liguilha" seria uma boa solução (o 15.º e 16.º da Liga Zon Sagres e o 3.º e 4.º da Liga Orangina, lutariam entre si por duas vagas no escalão principal), pois haveria competição  até ao fim e não se premiaria o demérito.

Mas para quê aumentar o número de clubes? Se a ideia é aproximar a nossa Liga aos campeonatos de Espanha, Inglaterra ou Itália, que contam com 20 emblemas, não faz qualquer sentido, até porque o futebol português tem ganho competitividade desde que tem 16 equipas no principal escalão. Todos os dias corre muita tinta sobre ordenados em atraso que assolam diversas equipas por todo o país. Quando todos conhecem os graves problemas financeiros que Portugal atravessa, o futebol não pode de forma alguma ser um mundo à parte.

E vamos ser francos: não há dinheiro para ir à bola, parece que a moda do meio milhar de adeptos nos estádios está aí para durar. O desporto rei nacional poderá ficar ferido de morte, o que levará à continuação do afastamento das pessoas com o futebol. E o povo tem quase sempre razão, iremos ver se o Manuel Cajuda também.

sábado, janeiro 21, 2012

Bola Fora #14: Na pele do campeão


por Bruno Fernandes


A imprensa espanhola revelou hoje (ontem) a camisola que o Barcelona vai utilizar na temporada 2012/13. Apesar de manter as cores tradicionais, as habituais riscas desaparecem e dão lugar... a uma chuva de críticas por parte dos adeptos culés que, segundo a mesma fonte, estão desagradados com a nova pele do campeão espanhol, europeu e mundial.

Dias depois de mais uma demonstração de classe e superioridade, com o triunfo frente ao Real Madrid, no Santiago Bernabéu, muitos poderão pensar: “Estão preocupados com uma mera camisola? São adeptos da melhor equipa do Mundo!”. A sabedoria popular sempre veiculou a ideia de que o hábito faz o monge mas, para esta equipa, a verdadeira ostentação da sua qualidade é mais do que um símbolo, do que um pedaço de tecido azul escuro e grená.


Interessa sim que a magia de Messi, Iniesta, Xavi e companhia continuem a arrebatar seguidores, rivais e cépticos. Compreendo o preciosismo de quem tem a honra de pertencer a uma família que vive em perfeita harmonia: a pele que tantos títulos conquistou vai dar lugar a outra. Mas a pele que tantos títulos conquistou é apenas isso, uma pele. Por baixo vive a fibra e o músculo daquela que é considerada por muitos a melhor equipa da história do futebol. E isso apenas continuará a ser possível caso os nomes das estrelas catalãs continuem inscritos na (nova) pele do campeão.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Bola Fora #13: O teu currícu10, uma dezena de dicas


por Bruno Fernandes


Dez. Não são nove, não são onze. Poderiam ser, mas não são. São dez. É escolhido por opção e porque numa peça cujo objectivo é a orientação das carreiras profissionais, o clichê dos números redondos ajuda quem mais precisa de explorar uma oportunidade. Enviar um currículo é mais do que arranjar uma dúzia de informações relevantes sobre o nosso percurso académico, é mais do que clicar em “enviar” na vossa caixa de correio electrónico. Façam-no falar, chegar às pessoas certas e nos moldes correctos. Para os mais desatentos, a Sociedade da Informação já chegou há uns valentes anos e, quando enviam um CV, há sempre alguém que já o fez primeiro, melhor e que já se transportou para outras paragens.

I. Ser original, outra vez?
É imperativo que a originalidade, uma velha conhecida de todos, seja a principal premissa quando, pela primeira vez, pensam em todo este processo. Existem milhares de modelos de currículos espalhados pela internet e cair no erro de copiar um deles é um passo atrás quando ainda nem saímos da casa de partida. 

É verdade que existem CV certificados e cujo preenchimento vai de acordo com o que a maioria das empresas quer, mas temos de ir mais longe. Como foi referido na nota introdutória, é preciso fazê-lo falar. Antes de elaborarem o vosso currículo, é essencial que procurem a sorte no meio de tanta banalidade: comparem moldes, risquem o ridículo, aproveitem as melhores partes e cozinhem o vosso próprio futuro.

II. Simples e eficaz
Qual a função de um currículo? Não vamos perder mais tempo: é estimular quem contrata a vos dar uma oportunidade presencial de mostrarem as vossas valências. Para isso, os empregadores não devem receber documentos com excesso de informação. Resumam-se ao essencial, sejam simples e eficazes. 

Esqueçam as capas, índices ou as introduções poéticas e que pressupõem chamar ao de cima a faceta mais emotiva de quem está do outro lado. Atenção, não quer isto dizer que o vosso CV seja desprovido de qualquer estatuto de destaque. Chamar a atenção é fulcral e meio caminho andado para sermos bem sucedidos.

III. Hey, vamos lá. Dá-me atenção
É aqui que a originalidade entra, de novo, em acção. O vosso documento deve ser resumido, claro e chamativo. Fujam, por exemplo, da Times New Roman, mas não sejam amadores ao ponto de escolherem letras mais infantis. Vocês querem algo credível, não se esqueçam disso. 

Deixem de fora os enfeites como rebordos ou cabeçalhos estereotipados. Deixem de fora todos os apêndices que, após uma auto-avaliação, sejam considerados supérfluos no vosso currículo. Quanto à letra, o mínimo aconselhável é o tamanho 10, preta e que não seja excessivamente grande ao ponto de dar um ar de uma ansiedade desnecessária.

IV. Olá, sou o teu currículo
Não vamos estar com meias medidas. O mercado é feroz e só os mais audazes e inteligentes conseguirão entrar neste trilho. Mencionem, sempre e em primeiro lugar, o vosso percurso académico. Cursos, Pós-graduações, Mestrados e Especializações devem ser o principal ingrediente deste processo. Quanto aos workshops, cursos de 80 horas ou presenças em conferências, devem ser preteridos sempre que seja possível. 

Quem lê o vosso currículo não se vai sentir impressionado por se terem deslocado a determinada faculdade para assistirem a uma qualquer palestra. As pessoas que vos vão avaliar, irão pensar que, à falta de melhor, tal informação é como um cartão de aniversário em cima de um bolo: fica bonito, mas na hora da refeição todos o vão negligenciar.

V. Adaptem-se
Introduzida a informação essencial, chega a altura de relatar algo a que as empresas dão uma importância extrema nos dias que correm: a experiência profissional. Se tiverem realizado estágios, curriculares ou profissionais, não se esqueçam que isso poderá funcionar como a alma do vosso CV. Quem emprega precisa de o fazer de forma célere e não gosta de dar tiros no escuro. 

Apreciam a polivalência, a pro-actividade e a capacidade de trabalho. Portanto, se querem impressionar, escolham este caminho. Para as pessoas que não têm qualquer tipo de experiência “no terreno”, deixamos um conselho: procurem rapidamente algo que possa melhorar as vossas competências, pois a não ser alguma sorte, não vemos muitos outros caminhos para o aguardado sucesso.


VI. O extracurricular
Em apenas 5 tópicos, já foram lançadas as traves mestras do vosso currículo. Agora, tudo o que vier a ser acrescentado será considerado extracurricular. Não tomem tal conceito como depreciativo. Não, de longe. As informações adicionais devem estar presentes neste tipo de documentos mas, como já foi referido anteriormente, temos de pensar bem na sua utilidade, pois não queremos ser considerados comuns. Por exemplo, numa candidatura a um jornal generalista de referência, fica sempre bem destacar acções que vão de encontro aos interesses do meio de comunicação. 

“Presença habitual em conferências onde são tratados problemas relacionados com a economia portuguesa? Parece-me bem”, pensarão os responsáveis por relacionar o que estão a apresentar com as necessidades do jornal. Entendem? Os efeitos são bonitos, mas temos de ter a capacidade de perceber se nos vão beneficiar ou prejudicar. Coloquem-se, sempre, do lado do empregador, na cabeça de quem vos está a contratar.

VII. Olá, este é o meu currículo
O que sempre costuma vir no início de um currículo, deve ser explicado a meio da elaboração do mesmo. A carta de apresentação. Não caiam no erro básico e amador de terem cartas para determinado tipo de empresas. Dará trabalho, será chato, mas escrever uma carta de apresentação para cada entidade empregadora para a qual enviem os vossos CV’s é um grande passo para chamar a atenção da mesma – lembra-se do principal objectivo do currículo? Estimular a atenção.

Estudem todos os critérios de seleção que são pedidos pela empresa e adaptem a vossa narrativa. Contem a vossa história como eles a querem ler. Cuidado, não se armem em heróis, digam tudo menos que são o melhor produto que eles podem “comprar”, não deixando que o medianismo vos apanhe. O mundo da empregabilidade está cheio de heróis, não vamos querer ser apenas mais um.

VIII. O correio toca sempre… muitas vezes
Chegou a altura de pensar em entregar – e o desacordo assim espera que o seja – a vossa obra-prima. Existem várias formas de o fazer: por correio normal, via e-mail ou de forma presencial. Se a primeira opção é, muitas vezes, utilizada para exportar o CV para fora do país, visto existirem empresas internacionais que assim o pedem, parece não haver dúvidas quanto à melhor das duas restantes formas. A pessoalidade é vista pelos empregadores como um factor de dedicação e pro-actividade, nunca se esqueçam disso. 

Enviar por e-mail é apenas uma opção, mas se formos entregar o currículo em mão existem diversas formas de sairmos a beneficiar: para além da questão da pessoalidade, ir ao local permite que, entre as centenas de currículos que irão estar em cima de uma secretária, o nosso possa ser visto de forma mais rápida. E se o imprimirmos em folha amarela? Será que não chamará a atenção entre um molho de folhas brancas? É uma sugestão.

IX. Uma chata mensagem de esperança: não desistam
Desenganem-se aqueles que pensam poder ser chamados para uma entrevista na semana seguinte ao envio do currículo. Se pode acontecer? Pode, sim. Mas olhando para a actual conjuntura do mercado de trabalho, existe a possibilidade de este processo se tornar moroso. Perante este cenário, será necessário ter paciência, continuar a enviar CV’s, actualizando as informações básicas de mês a mês, por exemplo. Se, num espaço de 3 meses, a situação for idêntica, aconselha-se uma reformulação a fundo.

X. Ao trabalho!
Dadas nove dicas, resta (...) apresentar mais uma: Sugerimos que depois de lerem “O teu currícu10”, apliquem alguns dos nossos conselhos e que ponham mãos à obra. E bom trabalho! (...)

publicado em www.desacordo.net

terça-feira, janeiro 10, 2012

Bola Fora #12 - Para contar a um miúdo


por Hélder Teixeira


É comum dizer-se que o futebol inglês é o mais espectacular do mundo. Concorde-se ou não com esta opinião, o certo é que ninguém fica indiferente ao que se passa nos relvados britânicos. Vamos a exemplos práticos.

Há um par de semanas, José Mourinho, que passou pelo Chelsea entre 2004 e 2007, veio a terreiro confessar a sua “paixão pelo futebol inglês e vontade de regressar”. O actual treinador do Real Madrid parece não ter sido o único a ter saudades da atmosfera contagiante dos estádios em terras de sua majestade. Que o digam Paul Scholes e Thierry Henry.

O médio inglês e o avançado francês foram os principais destaques da 3.ª ronda da Taça de Inglaterra, ao regressarem aos clubes onde foram figuras maiores, Manchester United e Arsenal, respectivamente.


Red devil. Nos últimos dias falava-se da possibilidade de Paul Scholes voltar a actuar pela turma de Manchester, após ter posto termo a uma ligação de 20 anos como jogador dos red devils no fim da pretérita temporada. A surpresa instalou-se quando Alex Ferguson, técnico do United, pouco antes do dérbi frente ao Manchester City, afirmou que o veterano iria sentar-se no banco.

No intervalo da partida, o Manchester United vencia facilmente por 3-0. O júbilo dos adeptos era grande, devido aos números folgados com que a turma de Old Trafford batia o rival, mas ficaria ainda maior. Aos 59 minutos, Scholes – que na semana passada era treinador da equipa de juniores do clube do qual é símbolo – foi lançado no jogo, rendendo o português Nani.

Qualquer adepto que se preze, simpatizante dos red devils ou não, deve ter esboçado um sorriso ao ver Scholes e Ryan Giggs novamente juntos em campo. Parece que foi ontem que vimos os dois erguerem o troféu da Liga dos Campeões, em 1999, numa equipa onde David Beckham ou Peter Schmeichel eram estrelas. Já passaram quase 13 anos.

Os citizens ainda reduziram a desvantagem para 3-2 mas, para registo, Paul Scholes atingiu a marca de 97% de passes bem sucedidos, porque quem sabe nunca esquece. “Penso ter ficado bem demonstrado o quanto eu senti saudades disto”, confessou Scholes, no alto dos seus 37 anos.


Gunner. “Eu e o Arsenal temos uma história de amor, com alguns dias maus”, foi assim que Thierry Henry comentou a sua ligação ao clube londrino no seu regresso a “casa”, quatro anos após ter rumado a Barcelona.

Actualmente vinculado ao New York Red Bulls, o avançado de 34 anos irá representar os gunners por empréstimo durante dois meses. Recorde-se que internacional gaulês representou o emblema da capital inglesa entre 1999 e 2007, onde apontou 226 golos em 254 jogos realizados. Contudo, Henry parece não querer parar a contagem.

Esta segunda-feira, frente ao Leeds United, o francês voltou a vestir a camisola do Arsenal e, como os hábitos são difíceis de mudar, voltou a inscrever o seu nome na folha de serviço. Henry foi o herói da partida ao apontar o golo solitário que deu a vitória aos gunners à passagem do minuto 78 e, consequente, o apuramento para a fase seguinte da Taça de Inglaterra.

No fim da partida, o timoneiro do Arsenal, Arsène Wenger, mostrava o seu contentamento com o desempenho do compatriota, e chegou mesmo a afirmar que foi “um sonho, uma história para contar a um miúdo”.

Se um dia os vossos filhos vos questionarem se existem histórias de amor no futebol e por que razão o desporto rei é diferente em Inglaterra, respondam com os exemplos de Scholes e Henry.

publicado em www.desacordo.net

sábado, dezembro 17, 2011

Bola Fora #11 - Roda dos Milhões


por Bruno Fernandes


Com a época festiva a porta, os representantes portugueses nas competições europeias tiveram presentes antecipados: uns envenenados, outros com brinde. Mas, tal como crianças ansiosas por rasgar o laço e o papel de embrulho, FC Porto e Benfica – os tais cujo sorteio não ditou a melhor das sortes – têm uma ótima oportunidade de mostrarem o porquê de terem figurado nos quatro finalistas da última edição da Liga Europa.

Perante um Manchester City sem problemas de ordem financeira na hora de se apetrechar, a turma de Vítor Pereira terá, entre preciosos fatores, vantagens que terá de saber utilizar: a larga experiência numa prova com o atual formato, assim como o facto de manter maior parte da estrutura que transita da temporada passada. Quanto aos citizens, a qualidade, a magia ou o discernimento na zona de decisão, são conceitos a ter em conta nos tais pormenores que, tal como Mourinho tanto gosta de enfatizar, podem decidir uma eliminatória. Nesta teia de dificuldades, uma palavra aos encarnados: perante uma equipa que superou o FC Porto, a turma de Jorge Jesus terá de fazer o que de melhor sabe para garantir uma vaga nos quartos-de-final da Champions. Uma boa organização defensiva alicerçada nas valências de Javi García e Witsel, assim como a tal nota artística de Aimar, Gaitán ou Bruno César, são permissas fundamentais numa função bem otimizada pelo timoneiro das águias.


Quanto a Sp. Braga e Sporting, aí, a tarefa afigura-se mais acessível. Besiktas e Legia serão pedras no sapato? Sim, sem dúvida. Mas leões e arsenalistas já mostraram ter qualidade suficiente para superar desafios de tal calibre. E se a formação de Istambul está longe de ser uma equipa de primeira linha na Europa (e, perdoem-me a sinceridade, também não tem brilhado no campeonato da Turquia), os polacos carimbaram o passaporte para os 16 avos da Liga Europa num grupo onde a qualidade das equipas que lutavam pelo 2.º posto deixava, com todo o respeito pelos visados, algo a desejar – casos do Hapoel Telavive e Rapid Bucareste.

Perante este cenário, e mesmo que em provas diferentes, os milhões europeus andaram à roda, caíram sobre o quarteto recheado de qualidade e cujo pensamento deve estar focado apenas em elevar, novamente, o nome de Portugal além fronteiras.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Bola Fora #10 - O Buraco


por Pedro Freitas


Por entre túneis e asfalto, eis que de vez em quando se ouve uma declaração de guerra aos cubanos. "São eles que nos querem roubar!", e o Chão da Lagoa vai ao rubro. De barraca em barraca a distribuir acenos, política de tasca, mentiras e, manguitos para os mais incómodos. Foi assim durante 33 anos e, para muitos madeirenses, durante toda uma vida.

Foi este o professor que vos deturpou a mente com mil e uma Estórias que só aos fiéis seguidores consegue ainda impingir. Se a liberdade de imprensa regional está comprometida, senão mesmo extinta, tudo se deve ao jornalista que até o próprio jornal acabou por "comprar"!


Corrupto parece assentar-lhe que nem uma luva, a mesma que parece feita à medida de um governo com tantas ou mais culpas no cartório. É o político que só sai da toca quando lhe dão uma tesoura para a mão. Iludidos, votam em massa. No entanto, o arraso eleitoral marca o fim da campanha que obriga à reconstrução de metade do que foi inaugurado à pressa, do que foi idealizado por estupidez.

É este o vosso adorado líder que omite tudo quanto conseguir. O tal que numa altura de sufoco, atira as culpas para os personagens das suas estórias e se lembra que, afinal, também é português.

sexta-feira, abril 01, 2011

Bola Fora #9 - Carta ao Balneário


por Pedro Freitas


"Temos de defender os 3 pontos até à morte" (Fábio Coentrão)

Não se tratam apenas de 3 pontos, trata-se do orgulho que não tem preço, do prestígio fruto das vitórias que enchem as páginas da nossa história, da honra de todos os que por cá passaram e, dos que ainda virão..

Até à morte é pouco para os que todos os anos sofrem, lutam e acreditam até ao fim, os que nunca vos abandonam, os que nunca se tornam indiferentes, os que nunca deixarão de gostar.

Até à morte é o mínimo para quem veste a camisola do maior de Portugal, é o mínimo para quem tem a gloriosa tarefa de representar milhões de orgulhosos campeões, é o mínimo para quem tem à sua volta milhões de chamas repletas de paixão, fiéis seguidores, não de um clube, mas de uma religião.

Até à morte é o pré-requesito dos melhores, dos que realmente merecem vestir a nossa camisola, daqueles que um dia serão carregados em ombros pelas páginas da nossa história.


Porque a maior parte de vocês vai sem olhar para trás, sai tão depressa quanto entrou, porque são poucos os que ficaram na lembrança, os eternos campeões, os que lutaram e venceram, os que tudo deram e pouco ou nada pediram, até à morte é vossa obrigação, por todo o apoio, por todo o amor, por todos os jogos que vos ajudamos a ganhar, por todas as vezes que precisaram que alguém vos fosse levantar, até à morte é menos do que nos devem.

Um dia já não estarei cá, tal como os que comigo estão e, os que já por cá passaram, um dia restará os que ainda virão, até depois da nossa morte, um dia serão eles a escrever os capítulos de uma gloriosa história que continuará a marcar geração atrás de geração.

Até à morte deveria ser sempre, todos os dias, em todos os treinos, em todos os jogos, sempre, sempre, sempre... porque até depois da morte a história continua, e a glória, essa, terá de permanecer intocável, à imagem da nossa paixão.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Bola Fora #8 - A Caça à Multa

por Jorge Correia



Consta que, nos últimos tempos, na cidade do Funchal, reinventou-se a pólvora. Não é novidade para o cidadão mais atento que normalmente a polícia encontra todo e qualquer defeito nos veículos de forma a poder multá-los, com suporte legislativo.

O mais recente caso está ligado à medida dos pneumáticos nos automóveis. Ora, o livrete do veículo prevê uma medida específica para essa calibração. Aqui fica um despacho da DGV (33/96) de 11/10/96:
1 - Nos livretes dos veículos automóveis e reboques, a medida da largura dos pneumáticos constante do campo "Pneumáticos" corresponderá à largura mínima permitida.
2 - O valor máximo admissível da largura do pneumático deverá garantir que o mesmo não faça saliência relativamente ao contorno envolvente do veículo aprovado.
3 - Sempre que o fabricante estabelecer limites para a largura dos pneumáticos a instalar nos veículos, deverão os mesmos constar nos livretes em anotações especiais.

O cidadão tem todo o direito de perceber a razão legal para atribuição da multa, bem como, perceber se está mesmo a ocorrer em infracção. 

Ora, aqui o problema está única e exclusivamente na legislação. Se um veículo, necessita de realizar a inspecção periódica e consequente aprovação, não deveria este assunto ser resolvido nesta instância? Ao que parece, a legislação para o centro de inspecções permite que os veículos sejam aprovados desde que apresentem boas condições de travagem, viragem, aderência, independentemente da largura do pneu. Qualquer pessoa consegue perceber que um pneu mais largo confere mais segurança e estabilidade ao veículo e não altera a velocidade alcançada pelo mesmo.
Uma multa por circular com os pneus ''carecas'' é duas vezes mais barata do que uma multa por circular com as medidas pneumáticas alteradas, mesmo que estes últimos estejam novos. Dá que pensar.


sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Bola Fora #7 - As 'Contas' do Título

por Alexandre Correia
Quando entramos no último terço do campeonato, estando ainda 30 pontos em jogo, aproveitamos para avaliar o trajecto final dos candidatos ao título, FC Porto e Benfica, introduzindo, para o efeito, uma nota para aferir sobre o grau de dificuldade de cada um dos compromissos com que se deparam nas 10 jornadas que restam.

A equipa do FC Porto (56 pontos) encontra-se naturalmente em melhor posição para chegar ao fim do campeonato na condição de líder, isto porque detém oito confortáveis pontos de vantagem em relação ao seu perseguidor directo, o Benfica (48 pontos). Ainda para mais, e ao contrário do que referiu o técnico encarnado Jorge Jesus no final do embate frente ao Sporting, não bastará que o Benfica consiga recuperar somente 8 pontos, isto porque o critério de desempate na I Liga, para equipas que se encontram em igualdade pontual, baseia-se no confronto directo entre ambas e não na diferença total de golos marcados e sofridos ao longo de todo o campeonato, como acontece, por exemplo, em Espanha. Assim sendo, convém recordar que, na primeira volta , o FC Porto goleou, 5-0, a equipa lisboeta e será certamente improvável que uma diferença de golos tão acentuada volte a ‘colorir’ o próximo embate entre ambas as formações, que se realiza dia 3 de Abril, no Estádio da Luz.

Desta forma, para o Benfica revalidar o título terá obrigatoriamente de não perder pontos e esperar que o FC Porto perca 9 pontos em 10 jornadas, ou seja, o equivalente a três derrotas em dez jogos. O cenário não é famoso para a equipa encarnada, visto que, o FC Porto, tem o impressionante registo de zero derrotas em 20 encontros, na I Liga.


Cinco adversários em comum
Nas próximas 10 jornadas, ambas as equipas defrontam 5 adversários em comum (Olhanense, Leiria, Portimonense, Paços de Ferreira e Marítimo), factor que faz com que seja complicado aferir qual das equipas tem um calendário mais acessível até ao epílogo da prova. Teoricamente, o Porto terá seis jogos que podem ser classificados, previamente, como sendo de um grau de dificuldade considerável. Desloca-se já na próxima jornada a casa do Olhanense, equipa que ainda não perdeu enquanto visitada para o campeonato, pelo que a coesão defensiva dos algarvios é um factor a ter em conta para este jogo. Segue-se a recepção ao Guimarães, formação que se encontra na luta pelo terceiro lugar da tabela e que foi, a par do Sporting, a única que conseguiu tirar pontos ao líder esta época. Desloca-se depois ao terreno do Leiria, com a equipa de Pedro Caixinha a sonhar ainda com as competições europeias.

O grande clássico entre Benfica e FC Porto é o quinto dos dez jogos que faltam e vai certamente ser o jogo-chave do campeonato. Decisivo para o Benfica, mais concretamente. A recepção ao Sporting é outro dos encontros que podem trazer dificuldades acrescidas aos pupilos de André Villas-Boas. O Porto está claramente melhor do que a formação de Alvalade, no entanto, um clássico é sempre um jogo de resultado incerto. Até ao final do campeonato o Porto defronta ainda a equipa do Paços de Ferreira, que já demonstrou esta época ser capaz de bater o pé a qualquer adversário. O Benfica, tal como o Porto, terá de defrontar, nas próximas jornadas, as equipas do Paços de Ferreira, Olhanense e Leiria. Jogos que assumem um grau de dificuldade elevado pelas razões já explicadas. No entanto, os encarnados têm a vantagem de já ter defrontado e ganho o outro ‘grande’, o Sporting. Contudo, é ainda de sublinhar a deslocação à casa do Sp. Braga, apesar da equipa de Domingos Paciência já ter demonstrado estar alguns furos abaixo comparativamente à época passada. Este será certamente um jogo em que os homens de Jorge Jesus terão de caprichar se quiserem arrecadar os 3 pontos.

Jogos Por Disputar:
FC Porto
Olhanense x Porto - 3 *
Porto x Guimarães - 3
Leiria x Porto - 3
Porto x Académica - 1
Benfica x Porto - 5
Portimonense x Porto - 1
Porto x Sporting - 4
Setúbal x Porto - 2
Porto x P. Ferreira - 3
Marítimo x Porto - 3
TOTAL - 28
Jogos em casa - 4
Jogos fora - 6
  
Benfica
Benfica x Marítimo - 2
Braga x Benfica - 4
Benfica x Portimonense - 1
P. Ferreira x Benfica - 3
Benfica x Porto - 5
Naval x Benfica - 1
Benfica x Beira-Mar - 2
Olhanense x Benfica - 3
Rio Ave x Benfica - 2
Benfica x Leiria - 3
TOTAL - 26
Jogos em casa - 5
Jogos fora - 5

* Grau de dificuldade (1 a 5)
Artigo publicado no Diário de Notícias Madeira

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Bola Fora #6 - O Mítico Campo do Pizo


por Pedro Freitas



O campo é pequeno, e sim, fica debaixo de uma ponte, lá no meio do nada. O cheiro que por lá paira é forte, característico e inesquecível, a culpa é da empresa de cervejas. Os bancos eram de ferro e madeira, não que os tenha usado muitas vezes. As linhas eram marcadas com cal, mal e porcamente. Os postes da baliza eram de ferro, mesmo... As redes não eram brancas, não tinham piada. A "placa electrónica" do 4º árbitro era do mesmo material dos postes, em grande quantidade, a sério. Depois veio o plástico, passaram a ser duas, uma verde e outra vermelha, básico. O "relvado" era castanho por causa da terra e cinzento quando esta era pouca, a culpa era do vento... A bancada era pintada de verde-bananeira de um lado, e de ganhaste-uma-viagem do outro quando a bola ia para a ribeira. O público era hóstil e interventivo, em dia de derby. Nos outros jogos era pouco, quando havia. Os balneários, esses, só visto! Mas era lá que todos os dias vestiamos o calção, nalguns casos sem cueca. Puxávamos a meia bem para cima, ou nunca jogaram na terra? Calçávamos a chuteira mais manhosa que tivessemos, era o clube que nos dava. E iamos lá para dentro, fizesse sol ou chuva.. Manter a bola no chão era complicado, só ao alcance dos melhores. Rasteirar era impensável, a não ser que se tivesse garra, a que nós tínhamos. Suar era imperativo, mas não mais que ganhar.


Campo do Pizo. Câmara de Lobos. Madeira
Impulsionados, não pelo público que muitas vezes não ultrapassava as 10 pessoas (o gajo do bar incluído), muito menos pelo prémio de jogo (o pão já tinha presenciado algumas manhãs, o fiambre cobria uma modesta parte do mesmo, e o sumo, quando havia, era daqueles instantâneos).. Impulsionados sim, por amor ao futebol, não menor que o que tinhamos pela camisola. Pela vontade de ganhar, que era muito superior à de qualquer equipa contra quem já joguei e, sobretudo, pelo nosso dever para com este pelado. O pelado que muito medo causou aos mais fracos, que glorificou os mais fortes, que muitas alegrias nos deu, que muitos jogos de invencibilidade nos proporcionou. O pelado que fez parte dos pesadelos de muito boa gente, o pelado que durante sete longos anos chamei de casa.

Para vocês não passa disso mesmo, um pelado, feio, pequeno e, provavelmente, um atentado ao futebol. Eu compreendo, e o dom da visão faz-me concordar convosco mas, foi esta "aberração" que me viu crescer, e não é mentira nenhuma se vos disser que é a melhor recordação que guardo do meu passado.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Bola Fora #5 - Tresanda a Petróleo


por Hélder Teixeira



Esta quinta-feira foi anunciado em Zurique os países organizadores dos Mundiais de 2018 e 2022. Rússia e Qatar foram os escolhidos. Os irmãos (?) ibéricos, Portugal e Espanha apresentaram a sua candidatura conjunto ao certame de 2018, e infelizmente para uns e felizmente para outros não venceram a corrida à organização do Campeonato do Mundo.

A candidatura ibérica é um pau de dois bicos, no sentido em que esta era a única possibilidade de Portugal organizar o maior evento desportivo do planeta e rentabilizar o investimento feito no Euro'2004. Por outro lado seria também, mais uma vez, um acto de subserviência aos nossos vizinhos espanhóis, devido ao facto da proporcionalidade de estádios/jogos que iria ser atribuídos à nobre pátria lusitana. Como diria um colega meu, "esta é uma candidatura espanhola, mascarada de candidatura ibérica". Assim sendo este resultado não me aquece nem arrefece.


O que me dá de pensar mesmo, é o facto dos mundiais serem entregues a Rússia, e principalmente Qatar. A Rússia é sem sombra de dúvidas um poderio económico e financeiro, e o futebol está em clara ascensão. Por seu turno o Qatar é uma potência em desenvolvimento, mas não tem território, não tem população, e parece-me que tem também muito pouco futebol. Esta nação do Médio Oriente, tal como a Rússia, tem petróleo, e o petróleo faz Josep Blatter, presidente da FIFA, esfregar as mãos de alegria. Fez muito bem em ter pressa em atribuir já o Mundial de 2022 ao Qatar. Está de parabéns senhor Blatter, pois tresanda a petróleo.

terça-feira, novembro 16, 2010

Bola Fora #4 - Sonhos de Criança


por Pedro Freitas



- Sabes porquê que as crianças adoram os atletas?
- Porque eles seguiram os seus sonhos.

Sempre que me lembro da minha infância vem-me uma lágrima ao olho, não pela nostalgia ou por achar que era mais feliz nessa altura do que agora. Nem tanto pelo facto de ser a única altura da vida em que as nossas preocupações baseiam-se apenas naquela miúda que se senta ao nosso lado nas aulas ou naquele otário que ficaria bem melhor sem dentes, de preferência com uma mãozinha nossa.
Sempre que olho para trás, não me interesso com assuntos triviais, não faz o meu género.
Romântico confesso, a mim interessam-me os sonhos de então, o que me guiava no dia-a-dia, o que me fazia sorrir, não de alegria, mas de felicidade.
Interessa-me saber o que eu queria ser quando 'fosse grande', interessa-me esse querer sincero que só uma criança é capaz de sentir.
É isso que me faz 'chorar', é saber que em pouco menos de uma década a vida pode dar uma reviravolta tal que a sinceridade já não é suficiente, é saber que se calhar, estaria bem melhor se nada soubesse.
Tenho saudades desses tempos em que a pergunta " O que é que queres? " permitia uma resposta simples, rápida, de uma só palavra, sem nenhum outro factor a ter em conta a não ser a razão para aquele brilho no olhar.
Mas, a vida leva-nos a rumar noutras direcções que muito provavelmente nunca nos tinham passado pela cabeça, à procura de uma vida melhor, onde a estabilidade é o sentimento que interessa e a felicidade, essa, fica muitas vezes guardada no baú das memórias.
Quando eu for grande, quero poder voltar aos dias onde essa expressão fazia sentido, quero começar de novo, mas desta vez, vou seguir o meu coração.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Bola Fora #3 - Em Guimarães, sê Vimaranense


por Gonçalo "Capitão" Moura



A pedido da própria Liga Tahiti, decidi escrever um texto sobre o Vitória de Guimarães, clube do qual sou adepto, de modo a demonstrar também as virtudes de ser adepto das raízes. E é destas que vamos falar.

As origens remontam a 1918, quando um grupo de estudantes decidiram constituir um grupo de futebol, ao qual deram o nome oficial de Vitória Sport Clube. Um ano depois, um outro grupo de estudantes fundou o Sporting de Braga, facto que terá importância na rivalidade.

Em 1921, o Braga torna-se oficial, seguindo-se um ano depois o Vitória. Estes dois factos geraram, ao longo das gerações, discussões sobre quem foi o primeiro. Algo próprio de dois burgos que cresceram ao longo da história em competição constante. A Associação de Futebol de Braga sofreu sempre muitas críticas, algo que sucedeu na conturbada época de 32/33, onde o campeonato distrital tinha sido adiado pela Federação. Na altura em que retomou, em Dezembro de 32, sucedeu-se um jogo contra o Braga onde o Vitória perdeu 2-0, gerando reacções negativas da imprensa vimaranense, acusando os adeptos bracarenses de terem provocado violência no estádio, algo que sucede, dum lado e doutro, até aos dias de hoje.

No entanto, é preferível procurar justificar a devoção dos adeptos ao Vitória. Há 3 justificações:

1 - O factor histórico. Numa cidade onde D. Afonso Henriques tem o estatuto de herói, era óbvia a escolha pelos estudantes da figura do 1º Rei de Portugal para o emblema, que pouco se alterou até aos dias de hoje. É ainda hoje a principal inspiração para o clube e para a cidade, sendo também por vezes um balão de oxigénio financeiro. Outra das inspirações (ainda em disputa) é Gil Vicente, o autor de autos, que alegadamente teria nascido em Guimarães. Contudo, Barcelos recusa-se a largar mão do autor, bem como o clube de mesmo nome, o que se percebe.

2 - O factor da cidade. Em duas vertentes, a cidade é motivadora devido: 1-á sua vertente histórica; 2-á vertente industrial. A cidade, até aos anos 80, tornou-se notável, para além da história e da arqueologia, pelo seu desenvolvimento industrial. De facto, muitos jogadores do Vitória nos anos 20 e 30 vinham dos círculos operários, em particular do sector das cutelarias. O que gerou outra rivalidade entre Guimarães e Braga, pois Braga teve muitas vezes dirigentes e jogadores que provinham da burguesia industrial.

3 - O factor “três grandes”. Depois da existência efémera do Campeonato de Portugal, Porto, Benfica e Sporting passaram a ter o destaque nacional e mais suporte. Um desejo dos vimaranenses foi sempre discutir o espaço com os três grandes, o que contribuiu para as altas expectativas no início de cada época. Daí a constante luta pelos lugares cimeiros do campeonato, para marcar presença nas competições europeias. Também a Taça de Portugal foi um pretexto, dada a presença do clube em 4 finais (das quais, infelizmente, não saiu vencedor).

Estes são os factores que levam á identificação de muitos vimaranenses com o clube, e a razão pela qual é o clube com a 4ª maior audiência regular a seguir ás dos “três grandes”, precisamente!

NOTA: Gonçalo "Capitão" Moura frequenta o segundo ano da licenciatura de Ciências da Comunicação no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. É vimaranense e adepto do Vitória local, é colega de curso dos tahitianos Hélder Teixeira, Jorge Correia e Alexandre Correia.

terça-feira, outubro 19, 2010

Bola Fora #2 - From West With Love


por Alexandre Correia


Para os que não sabem…. A Associação Desportiva Pontassolense foi fundada no ano de 1979, mas oficialmente a sua participação em competições oficiais tiveram inicio somente em 1981. Nos primeiros anos usava o estádio do Ribeira Brava, seu grande rival, onde fazia somente um treino semanal. No entanto, o estádio acabou por ficar concluído e as vitórias começaram a aparecer de forma natural.

Eu não me lembro, mas relata a velha guarda que o plantel era composto por “gajos da terra”, atletas tacticamente pouco evoluídos mas com sangue na guelra, "rijos! nada como esses brasileiros de hoje em dia”, mexiam-se dentro daquele campo de terra como peixes dentro de água, aquela era a sua praia e como eles gostavam dela… Foram esses os guerreiros que levaram o Pontassolense a campeão da 3ª divisão regional na época de 87/88. Outros dez anos passaram e o Pontassolense sagrou-se novamente campeão, não da segunda mas da primeira divisão regional.

Seguiu-se uma nova aventura, agora a nível nacional, e mais uma vez, não desapontou. Por esta altura, já a jogarmos em relvado sintético e contávamos com um plantel muito mais cosmopolita, precisamos apenas de 3 épocas na 3ª divisão nacional para consolidar a subida à 2ª divisão B. Lembro-me, como se fosse ontem, do dia em que conseguimos tal feito, jogávamos em casa, o estádio estava a romper pelas costuras, mais de mil pessoas (!) coisa nunca antes vista num campo da zona oeste insular. O que é certo que não existe ninguém por aqueles lados que não se lembre de tal dia. Cilindramos! E que festa foi! O meu avô (que de resto não bebia) chegou a casa embriagado e como ele muitos outros avós chegaram, com uma cadela enorme é verdade, mas acima de tudo cheios de orgulho no clube que viram nascer, no clube da sua terra, no clube deles e dos seus filhos!

Muitos não acreditaram que fosse possível a manutenção, mas a verdade é que conseguimos! Ficamos por lá e a verdade é que não tínhamos medo de ninguém. Na época de 2006/2007, às ordens de Lito Vidigal, estávamos a meio da primeira volta e tínhamos a melhor defesa da Europa, a par do Milan de Maldini (!), contudo a segunda volta foi desastrosa, morremos na praia, os sacanas do Freamunde passaram-nos à frente na recta final do campeonato, que azar! Que azia! Estivemos mais perto do que nunca da segunda de honra e deixamos fugir a oportunidade, no entanto o nosso valor era inquestionável! Tão inquestionável que voltamos a ser vice na época que se seguiu.

Nem tudo são rosas…….
A Associação Desportiva Pontassolense já passou por melhores dias, nos dias que correm este colosso futebolístico do oeste madeirense está a ser assolado por uma crise financeira intensa, falando-se já em falência. Como consequência da impossibilidade de pagar os salários mais elevados perdeu grande parte do seu plantel, incluindo os jogadores-chave de épocas anteriores. Neste momento somos o penúltimo classificado da zona norte, com apenas 1 ponto conseguido em 4 jogos. A descida é um cenário muito provável mas também evitável!

Cresci naquela casa e por lá passei mais de 10 anos como jogador, é indescritível o carinho que sinto pelo clube e a tristeza pela sua situação actual.
FORÇA PONTASSOLENSE !

PS: Não és o grande de Portugal, mas és sem dúvida o grande da minha terra.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Bola Fora #1 - Esforço, Dedicação, Devoção e Fé


por Bruno Fernandes



Ser sportinguista é um pouco como ler a obra de Saramago. Muita gente se fascina por uma escrita diferente, que exige ao leitor uma capacidade de compreensão que vá ao encontro do esforço realizado na escrita da obra. Outros, não estão para isso, e o ódio figura-se como a “solução” mais fácil. No Sporting os mecanismos são identicos: quando se ganha, ama-se. Quando se perde, odeia-se e tudo é posto em causa. Sem querer ter uma visão redutora de como funciona a questão do sucesso no desporto, no Sporting tudo é aparentemente mais grave. O complexo de inferioridade é real, a escassez de recursos é real, assim como a dificuldade de se lidar com situações incomuns, sejam elas positivas ou negativas. Porém, é igualmente efectiva a existência de um clube eclético, com um historial desportivo bastante rico, com uma massa associativa de um potencial imenso e recursos “naturais” com um nível de aproveitamento questionável (falo obviamente das camadas jovens).


À 7ª jornada da Liga Sagres o Sporting figura-se como 10º classificado (com apenas 9 pontos) e com uma diferença assinalável para o líder Futebol Clube de Porto. Mais do mesmo. Um mau arranque de campeonato, com a contestação a subir até um tom justificável para um mero sportinguista impaciente, sedento de títulos, mas que com um par de boas exibições/resultados fica satisfeito. Para esses, o verdadeiro lema passa pelo Esforço, Dedicação, Devoção e Fé em vez da saudosa Glória. O porquê é dificilmente perceptível com análises superficiais. A crítica, quer à gestão do clube, quer à forma de actuar da massa associativa é de uso fácil e corrente. Se por um lado entendo que o clube deve ser dos sócios (e leia-se, os sócios são o principal activo de um clube como o Sporting), tendo estes toda a legitimidade de contestar as opções tomadas pelos seus dirigentes, também tenho de compreender que hoje em dia gerir esta instituição é colocar de forma propositada uma corda ao pescoço. À coragem, ao querer e ao acreditar têm de se juntar urgentemente resultados para que a “glória” volte de novo a fazer parte do vocabulário leonino.

Quando se ama, aplaudimos, vibramos, vaiamos, assobiamos, contestamos, estamos lá 365 dias por ano. Mas nunca podemos odiar ao ponto de criar dois lados de uma guerra em que os sportinguistas precisam de compreender que estão a lutar contra eles próprios.

NOTA: Bruno Fernandes é licenciado em Ciências da Comunicação pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, actualmente é mestrando também em Ciências da Comunicação. Sócio do Sporting Clube de Portugal e colega de curso de Hélder Teixeira, Jorge e Alexandre Correia.