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sexta-feira, julho 19, 2013

COL DU GALIBIER #8: Lusitana paixão


Não sou chauvinista. E, para ser franco, estou-me bem nas tintas se ousarem dizer que o sou. Mas a ocasião pede que ignore Hushovd, Evans, Contador, Vinokourov, os irmãos Schleck, Gesink ou mesmo Van Garderen. Foi um português, um jovem português, que trilhou o caminho de Aigurande até Super-Besse Sancy de forma brava e meritória, arrebatando a maior vitória da sua ainda curta carreira.

Rui Costa, de 24 anos, foi certeiro no dia que “escolheu” para integrar uma fuga. Teve a arte e o engenho de responder nos momentos certos aos seus companheiros de escapada, sobretudo ao norte-americano Tejay Van Garderen (HTC-Highroad) e foi a personificação do estoicismo ao resistir nos últimos quilómetros à aproximação do pelotão – onde vinham todos os tubarões, excepto Gesink – e, principalmente, do sequioso Vinokourov.

O triunfo do corredor da Póvoa do Varzim, actualmente ao serviço da espanhola Movistar, voltou a revelar a necessidade latente que nós portugueses temos de ser bem sucedidos. Lidamos muito mal com a mediocridade e com o insucesso e só nos conseguimos reunificar em prol de causas que encaremos como nossas ou que, pelo menos, elevem o ego do nosso (in)consciente colectivo.


Feliz ou infelizmente, este acaba por ser o efeito ilusório, qual panaceia dos males do mundo, que o desporto comporta. E, por muito que os detractores da nação e os críticos das diversas modalidades desportivas, insistam recorrentemente em desvalorizá-lo, a verdade é que nunca se vislumbra tanta união entre nós como nestes momentos. Roem-se as unhas, dão-se as mãos, pede-se ao primo mais pequeno que faça pouco barulho, deixa-se cair a bolacha no sofá ou vai-se celebrar com o vizinho os momentos subsequentes a um sucesso que acaba por ter tanto de nosso como de quem efectivamente o conseguiu. E isto, meus senhores, não há agência de notação financeira que possa avaliar ou instituição internacional que consiga mensurar.

Os sintomas que descrevi são relativamente simples e reflectem uma doença de que padeço: a lusitana paixão.

Bem-haja, Rui!
Octávio Lousada Oliveira
Publicado em 2011.

segunda-feira, julho 25, 2011

Col du Galibier. 1911-2011

Tour de France. Col du Galibier (1932).
No centenário da primeira passagem do Tour de France pelo Col du Galibier, a LIGA TAHITI fez a cobertura de todas as etapas da mais dura prova de ciclismo do planeta. Para além da análise a cada tirada, contamos ainda com o excelente contributo de Octávio Lousada Oliveira.

Esperamos que as 22 crónicas ao longo das últimas semanas tenham servido para que todos nós aprendêssemos mais um pouco sobre uma modalidade riquíssima em estratégia, estoicismo e superação individual e colectiva.

A LIGA TAHITI agradece ao cronista convidado por todos os textos de alta montanha, e apresentou uma proposta para a sua participação na Liga Bora Bora 2011/12, que foi desde logo aceite. Obrigadíssimo!

COL DU GALIBIER #21 (o último): Água mole em pedra dura…


Cumpriu-se o desígnio de Cadel Evans. O ciclista da BMC alcançou finalmente o triunfo que mais ambicionou. “O que posso dizer? É incrível… Há tantos anos que penso ganhar o Tour de France”, foram as espontâneas palavras que o australiano proferiu após cortar a meta nos Campos Elísios.

A subida ao lugar mais alto do pódio em Paris materializa a vitória da persistência sobre a resignação. Foram várias as tentativas, incomensuráveis as dores, bastantes os pesadelos e, sobretudo, diversas as frustrações. Ano após ano, parecia que faltava sempre um pouco de qualquer coisa ao ciclista natural de Katherine. E não havia forma de Evans superar essa lacuna. Ora um dia para esquecer na montanha, ora um contra-relógio por equipas que o relegava para segundo plano na luta pela geral, ora uma queda numa etapa plana que o marcava para as três semanas de prova… Enfim, uma espécie de determinismo natural conspirava contra o campeão do mundo de 2009.

Contudo, como afirma o aforismo popular, água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E furou mesmo. Está premiada uma carreira repleta de sucessos, embora poucos reflictam a inegável qualidade de um homem que já leva 18 anos de carreira, tendo servido várias formações com peso no seio do pelotão internacional.

Já que é de fazer um balanço que se trata este artigo, uma referência muito positiva para os dois irmãos Schleck – com o “pormaior” dos contra-relógios, que lhes continuam a custar vitórias nas grandes voltas. Sublinho também as prestações de Thomas Voeckler (Europcar), o guerreiro da Grande Boucle, de Pierre Rolland (também da Europcar) por ter arrebatado o prémio de melhor jovem da prova, de Thor Hushovd (Garmin-Cervélo) e Boasson Hagen (Sky) pelas quatro etapas que conquistaram para a Noruega, de Philippe Gilbert (Omega Pharma-Lotto) pela disponibilidade para estar constantemente ao ataque, de Jérémy Roy (Française des Jeux), ciclista mais combativo ao longo dos 3430 quilómetros em estradas gaulesas, de Samuel Sánchez (Euskaltel-Euskadi), pelo 6.º lugar na geral individual e por juntar a camisola branca às bolinhas vermelhas ao seu palmarés, obviamente do português Rui Costa (Movistar), por trazer uma etapa no bolso, e da melhor equipa, a Garmin-Cervélo.


Deixei Mark Cavendish e a HTC-Highroad de fora destas contas gerais porque, de facto, seis vitórias arrecadadas por uma só formação é… obra. Cinco dadas pelo sprinter de serviço, o britânico de 26 anos - que até foi o mais rápido na chegada a Paris e envergou a camisola verde no pódio final - e uma pelo alemão Tony Martin no contra-relógio de sábado.

A última menção é para Alberto Contador. Despediu-se da 98.ª edição do Tour em bom plano e foi sempre honrosa a forma como defendeu o dorsal 1. Atacou quando pôde, defendeu-se quando teve de o fazer e só se rendeu quando percebeu que as pernas não lhe fariam mais concessões e os adversários já estavam demasiado longe. Promete regressar em 2012 - sem correr o Giro pelo meio - para vencer. Será?

Importa ainda referir que hoje é feriado nacional na Austrália. Pudera… Este poderá ser o tónico que o universo velocipédico do país precisava para começar a produzir homens talhados para grandes provas, ao invés de emanar somente roladores e sprinters.

Quanto a mim, é com alguma nostalgia que termino esta rubrica que tanto gosto me deu fazer. Reafirmo que foi um prazer colaborar com os amigos da Liga Tahiti. Despeço-me com amizade, quiçá até Julho do próximo ano…
Octávio Lousada Oliveira

domingo, julho 24, 2011

COL DU GALIBIER #20: Comandante Cadel


Com suor e lágrimas Cadel Evans (BMC) arrebata a Volta a França’11. Foram necessárias muitas participações, muita perseverança e muito sofrimento para subir ao lugar mais alto do pódio em Paris, mas, finalmente, o sonho do australiano vai cumprir-se e este domingo será promovido a Comandante Cadel em plenos Campos Elísios, no coração da capital francesa.

À partida para o contra-relógio em Grenoble, 57s separavam-no do mais novo dos irmãos Schleck, Andy, e 4s era quanto tempo de atraso tinha para o mais velho, Frank. O seu director desportivo, John Lelangue, foi cauteloso na abordagem à etapa, conferindo maior dose de favoritismo a quem partia com vantagem. Mas obviamente que do pensamento à palavra há um filtro tremendo, uma arte de mascarar a verdade ou mesmo uma divergência evidente. O líder da BMC era o favorito, por muito que isso não tenha sido assumido. Mind games, mind games…

O mais novo do clã luxemburguês possuía legítimas aspirações a vencer o Tour deste ano, até porque o seu principal carrasco, Alberto Contador, claudicou no primeiro dia do Galibier e ficou praticamente arredado da luta final. Mas há um aspecto que não pode ser escamoteado: quando se perde mais de dois minutos e meio num contra-relógio, é preciso ter asas na montanha. E, apesar de ter sido o melhor nas duríssimas jornadas pirenaicas, primeiro, e alpinas, depois, Andy Schleck não amealhou tempo suficiente para se defender no esforço solitário. Há ainda um outro ponto a considerar: actualmente, há apenas um crono individual no percurso da maior prova velocipédica do mundo; há uns anos, eram dois, o que, com perdas similares em ambos, deixaria o dorsal 11 de fora do pódio.


Evans foi o mais regular da Grande Boucle e, ao cabo de muitos anos de desilusões e frustrações, vai dar um tónico ainda maior ao ciclismo do seu país. Mereceu esta vitória pela forma combativa como sempre deu o “peito ao vento” e nunca se escondeu atrás de artifícios estratégicos ou tácticas irritantes de contenção. Como referiu Lelangue, “foram três contra-relógios em três dias” para o australiano. Que justo será vê-lo este domingo a beber champanhe e a deixar de ser o “eterno segundo” ou “senhor quase”.

Uma nota para o belíssimo contra-relógio de Tony Martin (HTC-Highroad) – e, consequentemente, para a quinta vitória da formação norte-americana - e outra para a desilusão que foi o super-favorito Fabian Cancellara (Leopard Trek), apenas 8.º classificado.

Pierre Rolland (Europcar) segurou a camisola branca, símbolo da liderança da classificação da juventude, resistindo à aproximação do estoniano Rein Taaramae (Cofidis). Por isso, na etapa deste domingo, entre Créteil e Paris, só resta definir o camisola verde, símbolo da regularidade. Mark Cavendish (HTC-Highroad), pois claro, parte na frente, com 15 pontos sobre Joaquín Rojas (Movistar), e não deve desperdiçar esta oportunidade. De resto, creio que até triunfará nos Campos Elísios…

Seguro, seguro é que, para o ano, será Cadel Evans o dorsal 1 da prova, com toda a propriedade. Em frente Comandante!
Octávio Lousada Oliveira

sábado, julho 23, 2011

COL DU GALIBIER #19: A luta é mesmo a dois


Está encontrado o pódio da 98.ª edição da Volta a França. Estão também definidos os dois primeiros classificados da prova: Andy Schleck (Leopard-Trek) e Cadel Evans (BMC). O irmão mais velho, Frank Schleck, vai ter que se contentar com o lugar mais baixo do pódio e o grande favorito à partida, Alberto Contador (Saxo Bank-Sungard), quedar-se-á pelo 5.º posto, sendo expectável que ultrapasse Damiano Cunego (Lampre) no contra-relógio individual, em Grenoble.

Esta sexta-feira ficará para a História como uma das mais belas etapas a que os (tele)espectadores puderam assistir. Todos os condimentos foram colocados na dose correcta. Um vencedor inusitado mas repleto de mérito, Pierre Rolland (Europcar), ataques de figuras de proa a 90 quilómetros da chegada ao Alpe D’Huez, muita resistência – sem final feliz – por parte do camisola amarela Thomas Voeckler (Europcar) e diferenças muito curtas entre os três primeiros classificados, que deixam margem para rectificações no contra-relógio de hoje.

Uma vez mais, foi Alberto Contador a abrir as hostilidades. O dorsal 1 estava ciente de que arrebatar a amarela em Paris seria praticamente impossível mas, por motu proprio, não se coibiu de se atirar ao último esforço alpino como se dele dependesse a sua vida. E só por isso já merece uma palavra de apreço – e garantiu também o prémio da combatividade. Andy Schleck acompanhou-o de pronto e Voeckler bem tentou mas as pernas não responderam à altura. Ficou a meio caminho, sendo mais tarde absorvido pelo grupo dos restantes candidatos. Cadel Evans demonstrou, pela primeira vez na Grande Boucle sinais de fraqueza mas a sua BMC, a par da Liquigas, lá conseguiu recolocá-lo na frente da corrida, antes da entrada na última contagem de montanha da prova.


No entanto, no Alpe D’Huez, já depois de ter sido alcançado, Contador jogou nova cartada. Um ataque feroz e uma ascensão galopante, a que só Samuel Sánchez (Euskaltel-Euskadi) – virtual vencedor da classificação da montanha - e Pierre Rolland (Europcar) – novo líder da classificação da juventude – resistiram. Não deixa até de ser irónico que tenha sido o habitual aliado de “El Pistolero” a retirar-lhe a vitória da etapa, já nos quilómetros finais da subida, uma vez que levou a reboque o jovem francês, mais fresco, para se livrar dos dois espanhóis e conquistar um triunfo memorável. Merecia mais Contador, num dia em que a sua prestação se coadunou mais com as qualidades que lhe são sobejamente reconhecidas.

Os irmãos Schleck e Cadel Evans chegaram juntos – que marcação cerrada! – e guardaram para amanhã a derradeira batalha. Fora destas contas fica irremediavelmente um irascível Thomas Voeckler, que mostrou o seu desagrado com tudo. Colegas, director desportivo, boiões de água e motos da realização foram os escapes numa tirada bastante inglória para o ídolo francês.

Ivan Basso (Liquigas) constituiu a desilusão do dia e Peter Velits, por oposição, uma agradável surpresa (não para mim, reafirmo).

Amanhã joga-se tudo. Favoritismo para Cadel Evans, embora, em bom rigor, se saiba que a maillot jaune costuma dar asas a quem a enverga. E para o australiano será este ano ou nunca mais…

Octávio Lousada Oliveira

quinta-feira, julho 21, 2011

COL DU GALIBIER #18: Andy Schleckcionou de vez


Estão encontrados os homens que efectivamente lutam pela vitória na Volta a França. Apesar dos ciclistas ainda terem que ultrapassar a dura etapa de amanhã, com nova passagem pelo Col du Galibier e subida final ao Alpe D’Huez, ficou hoje claro quem são os candidatos ao triunfo final. E, sem menosprezar Thomas Voeckler – que julgo que ficará no pódio, os grandes favoritos são Andy Schleck e Cadel Evans. Mesmo o primogénito da família Schleck, Frank, não conseguirá amealhar tempo suficiente na tirada de amanhã para chegar ao contra-relógio com margem para o australiano da BMC.

Esta quinta-feira a Leopard Trek, através de uma estratégia muito bem montada, deu uma machadada nas aspirações de Alberto Contador (Saxo Bank-Sungard) e relançou Andy Schleck, que com inconfundível classe seguiu Alpes fora, ajudado apenas pelo seu companheiro Maxime Monfort. Foi um ataque calculado, é certo, mas com uma dose de arrojo a resvalar para o suicídio. Brian Nygaard e Kim Andersen, responsáveis da formação luxemburguesa, foram argutos e os irmãos Schleck até tinham um plano B, caso o ataque do mais novo fracassasse. Frank tentaria a sua sorte na eventualidade do grupo de candidatos alcançar Andy na última subida (Galibier Serre-Chevalier). A loucura e o sucesso raramente se emparelham mas, como por vezes acabam por se tanger, dou 20 valores a Andy Schleck pela soberba prestação alpina.

Confirma-se também a superioridade da Leopard Trek em todos os terrenos e comprova-se aquilo que ainda hoje Paulo Martins, da Eurosport, fez questão de frisar: o Giro e a Vuelta podem ser ganhos sem equipa, mas no Tour isso é praticamente impossível.


Apesar da dobradinha familiar, o meu segundo destaque tem que ser dirigido a Cadel Evans. Parecia uma locomotiva, depois da pasmaceira que teve lugar entre o Col d’Izoard e o início da subida ao Galibier. Não se amedrontou por carregar toda a concorrência às costas, qual canino portador de múltiplas carraças, e reduziu a vantagem do dorsal 11 em cerca de dois minutos. Neste momento, as odds estão a seu favor.

Apesar do parasitismo – ainda que subtil, mesclado com escassez de forças -, Thomas Voeckler (Europcar) voltou a segurar a maillot jaune. As hipóteses de triunfar em Paris não são muitas mas ainda existe uma réstia de esperança para os franceses. Pierre Rolland esteve impecável ao longo das três subidas, escudou o seu líder e ainda se aproximou da camisola branca, agora na posse do estoniano Rein Taaramae (Cofidis).

Uma última nota para o detentor da prova, Alberto Contador: ninguém pode negar a sua qualidade e a sua bravura, mesmo quando está menos bem fisicamente. Mas está provado que vencer o Giro e tentar conquistar o Tour não está ao alcance de todos. Contador não é Pantani e os tempos também são outros. Deveria repensar a sua preparação no próximo ano porque, como o próprio já admitiu, “a vitória é impossível”.

Em suma, está feita a grande triagem nesta edição muito poeirenta da Grande Boucle. Esperemos que amanhã as diferenças não sejam demasiado relevantes para que o crono de Sábado ainda consubstancie alguma incerteza e emoção.
Octávio Lousada Oliveira

COL DU GALIBIER #17: "Até que as montanhas venham abaixo"


Para qualquer país que tenha no ciclismo uma modalidade com algum relevo social é um luxo ter um executante a percorrer as estradas da Volta a França. A cobertura e exposição mediática serão maiores se forem dois os ciclistas presentes na prova gaulesa. Se a isso juntarmos o facto de um deles ter envergado a mítica camisola amarela, o orgulho nacional eleva-se ainda mais. Se, posteriormente, esse mesmo corredor vencer uma etapa, o tal país cumpre e supera as expectativas. Mas, pouco satisfeito, o compatriota teima em arrebatar também um triunfo. O primeiro, uns dias volvidos, responde com novo primeiro lugar numa tirada e, esta quarta-feira, o mais novo regressa ao lugar mais alto do pódio em Pinerolo. A minha pergunta é a seguinte: a Noruega levou dois vikings sob a forma de ciclistas para a Grande Boucle? É que só dois homens daquela pequena nação velocipédica já acumularam quase um quarto das etapas desta edição do Tour…

Na jornada que ligou Gap a Pinerolo (Itália), Edvald Boasson Hagen (Sky) “vingou” a derrota de ontem ante o compatriota Thor Hushovd (Garmin-Cervélo), depois de se intrometer em nova fuga ao pelotão. Após o bis, o multifacetado ciclista escandinavo afirmou mesmo ter “uma espinha encravada por não ter conseguido vencer” no dia anterior. 


A etapa era dura – continha cinco contagens de montanha – mas o também vencedor da tirada entre Dinan e Lisieux não se mostrou temeroso. Na última e difícil subida do dia, Côte de Pramartino, Boasson Hagen deixou todos os companheiros circunstanciais de fuga e, a solo, subiu e desceu para terminar a receber os costumeiros beijinhos das meninas do pódio. 

Com duas vitórias sucessivas, em etapas particularmente acidentadas, Hagen e Hushovd fazem-me recuperar parte do juramento de Eidsvoll (onde a Constituição daquele país foi adoptada), em que se diz “Unidos até que as montanhas do Dovre venham abaixo”. Não as da referida cordilheira, mas as montanhas francesas têm mesmo vindo abaixo com os dois únicos representantes da Noruega. 

No que à geral individual concerne, parece-me haver um Contador superavitário para uma concorrência deficitária. Nova demonstração de força de “El Pistolero” (até mesmo a descer) e de Samuel Sánchez, que acabou por redundar em nada, face ao trabalho final dos outros adversários. Os únicos penalizados foram o líder Thomas Voeckler (Europcar) e o italiano Ivan Basso (Liquigas), que cederam 27 preciosos segundos. Esta quinta-feira teremos a etapa rainha do Tour de France’11, com a chegada ao centenário Galibier, ele que dá nome a este singelo espaço de análise. Como já aqui disse anteriormente, será dia de sofá.

Octávio Lousada Oliveira

quarta-feira, julho 20, 2011

COL DU GALIBIER #16: Galdeano bem avisou


O segundo e último dia de descanso da Volta a França foi uma boa oportunidade para se ouvir um pouco daquilo que as principais figuras das estradas pensam sobre esta última semana de prova. Dentre as banalidades que normalmente são proferidas nestas ocasiões, destaco a sensatez e perspicácia do director desportivo da Euskaltel-Euskadi. Igor González de Galdeano – lembram-se dele? – foi lacónico e lançou os próximos dias da Grande Boucle de forma muito acertada. O team manager da equipa basca, em declarações à agência EFE, afirmou que “Alberto Contador iria decantar o Tour num sentido ou noutro”.

E, de facto, tal com apontei há uns dias neste espaço, o espanhol é dos poucos com coragem para atacar a corrida e os adversários, mesmo onde o atrevimento é menos expectável. Nesta terça-feira, no Col de Manse, subida de 2.ª categoria que antecedeu a chegada a Gap, “El Pistolero” foi o primeiro a consumar aquilo que a equipa de Cadel Evans, a BMC, fazia prever: um teste exigente a Thomas Voeckler (Europcar) e a toda a concorrência. Após duas ou três mudanças de velocidade tão características, o dorsal n.º 1, o australiano e o basco Samuel Sánchez foram-se mesmo embora. Se no final da subida a vantagem não era muito preocupante, na descida as distâncias avolumaram-se. Principal penalizado: Andy Schleck (Leopard-Trek).


E este abanão, que o próprio Contador admitiu ter sido “melhor do que podia imaginar” volta a reacender a luta pela geral e a conferir grande dose de favoritismo a… Cadel Evans. O ex-campeão do mundo está numa forma incrível – veja-se como reagiu sempre de pronto ao chefe de fila da Saxo Bank e como desceu e rolou de forma imparável até cruzar a meta na Capitale Douce – e é de todos os candidatos à vitória final aquele que melhor se comporta no contra-relógio.

Mesmo que Contador não inscreva o seu nome na lista de vencedores pela quarta vez, está visto que da sua acção dependerá o epílogo da luta pela maillot jaune. Voltando a recorrer às palavras de Galdeano, “os seus rivais temem-no e, se estiver bem, vai partir a corrida”.

Aproveito ainda para sublinhar o carácter e a senda vitoriosa de Thor Hushovd (Garmin-Cervélo). O segundo líder desta edição do Tour voltou a fazer uma demonstração cabal de toda a sua classe. Vencer em Gap – onde Sérgio Paulinho venceu no ano transacto -, depois de mais uma longa fuga, suplantando o seu compatriota Edvald Boasson Hagen (Sky), não é para todos. É para Hushovd e poucos mais… E só deixei esta menção para o final porque tendo a decisão da guerra a acontecer não poderia focar-me particularmente na batalha de hoje.

Octávio Lousada Oliveira

segunda-feira, julho 18, 2011

COL DU GALIBIER #15: (A)normalidade


Mark Cavendish, quem mais? Na etapa deste domingo, que ligou Limoux a Montpellier, o sprinter da HTC-Highroad voltou a não dar qualquer hipótese aos seus rivais. Tyler Farrar (Garmin-Cervélo) e Alessandro Petacchi (Lampre) bem tentaram mas o “Expresso da Ilha de Man” insiste em tornar fáceis as previsões dos adeptos quando é de chegadas em pelotão compacto que se fala. Já é uma (a)normalidade que ninguém questiona.

Dissertar sobre o triunfo do britânico seria chover sobre o molhado. Prefiro dar ênfase à estratégia montada pelo director desportivo da formação norte-americana, Allan Peiper. O team manager dá-se ao luxo de conseguir controlar estas etapas praticamente planas com apenas dois homens, Lars Bak e Danny Pate, tal como referiu no final da etapa o próprio Mark Renshaw, deixando de reserva para os derradeiros quilómetros Bernhard Eisel, Matthew Goss, Tony Martin, Peter Velits – estes dois já fora da luta pela geral individual – e, obviamente, Mark Renshaw.

Depois é imprimir um ritmo duríssimo e que ninguém consiga furar – veja-se o caso de Phillipe Gilbert (Omega Pharma-Lotto), que ainda hoje tentou a sua sorte -, e levar Cavendish nas melhores condições até cerca de 300 metros da linha de chegada. E aí, enfim, todos sabemos…


Num dia de alguma placidez, apesar do vento que se fez sentir no Sul de França, começaram já as projecções para os Alpes, até porque amanhã chega o merecido descanso. Contador (Saxo Bank-Sungard) assegura que não vai chegar a Paris sem atacar, mesmo reconhecendo que será difícil vencer a Grande Boucle pela 4.ª vez, Voeckler (Europcar), honestamente ou não, diz que as probabilidades de manter a amarela são nulas e Andy Schleck (Leopard Trek) aponta Cadel Evans (BMC) e Ivan Basso (Liquigas) como principais ameaças ao seu triunfo. Estarei atento à próxima abordagem montanhosa…

Nesta segunda parte da corrida, sou “obrigado” a sublinhar, além do já referido Cavendish, os desempenhos do norueguês Thor Hushovd (Garmin-Cervélo), pela jornada verdadeiramente gloriosa em que cruzou o Col d’Aubisque e chegou isolado a Lourdes, Samuel Sánchez, por ser o único homem para a geral que se mexeu efectivamente em busca dos seus objectivos e até venceu em Luz-Ardiden, e o herói dos franceses, Thomas Voeckler. Eu, que sempre coloquei sérias interrogações à sua qualidade e que, em parte, o considerei fruto de uma admiração exacerbada do povo francês, órfão de uma referência maior no ciclismo desde Bernard Hinault, estou rendido.
Octávio Lousada Oliveira

domingo, julho 17, 2011

COL DU GALIBIER #14: Risco


Existe uma característica em cada ser humano, cujo reflexo é bastante visível nos seus comportamentos seja em que área for, que aprecio bastante: a assunção do risco. Daí decorre a minha profunda desilusão com a etapa de ontem do Tour de France, uma vez que ninguém teve coragem de abanar definitivamente a corrida. Uma chegada a Plateau de Beille, na derradeira oportunidade pirenaica, pressupunha mais arrojo da parte dos líderes das principais equipas do pelotão.

Numa corrida endurecida desde muito cedo pela Leopard Trek dos irmãos Schleck, foram muitas as cerimónias para se aumentar o ritmo na cabeça do grupo principal quando os gregários dos luxemburgueses terminaram o seu trabalho. Mais uma vez, ou as forças estavam muito equiparadas entre os homens para a geral individual ou o respeito mútuo acabou por imperar – ou mesmo receio de atacar e ficar “a pé”.

O paradigma do calculismo ou da aposta nos serviços mínimos foi Alberto Contador. O espanhol da Saxo Bank-Sungard limitou-se a responder aos ataques dos seus adversários mais directos – sendo que não podia responder a todos – mas nunca esboçou qualquer tentativa de contra-ataque. Veremos o que conseguirá fazer nos Alpes…

Por sua vez, Cadel Evans e Ivan Basso não têm explosão para sacudir homens como “El Pistolero” ou os irmãos do grão-ducado e Damiano Cunego, sem constituir uma grande desilusão, não conseguiu acompanhar os restantes candidatos até ao topo da montanha.


A sociedade Andy-Frank foi, uma vez mais, quem mais procurou ser feliz mas sem sucesso. O mais velho sentiu até algumas dificuldades nos quilómetros finais quando Cadel Evans e Ivan Basso aumentaram o ritmo.

No meio de todo este emaranhado velocipédico foi Jelle Vanendert (Omega Pharma-Lotto) a puxar dos galões e a fazer um esforço solitário, cruzando a meta antes de todos os favoritos, naquele que foi o maior triunfo da sua ainda curta carreira. Samuel Sánchez não se conformou com o equilíbrio pelo terror que se fazia sentir no seio do grupo e foi à procura de Vanendert, ainda que tenha ficado a 21s da nova descoberta do ciclismo belga.

Digno de registo continua a ser o estoicismo e a capacidade de vender cara a derrota – será que vai mesmo ceder a amarela? – do líder Thomas Voeckler. O francês não só se defendeu perfeitamente dos tubarões do pelotão como ainda teve a ousadia (calculada) de os pôr em sentido com ataques esporádicos. Será somente o elã da maillot jaune? Custa-me a crer.
Octávio Lousada Oliveira

sábado, julho 16, 2011

COL DU GALIBIER #13: Já vi tudo no ciclismo...


A vitória de Thor Hushovd na tirada desta sexta-feira foi quase uma projecção do imaginário colectivo dos amantes de ciclismo. Ainda estou incrédulo com aquilo a que assisti. Nunca vi um porco a andar de bicicleta, mas, doravante, poderei afirmar que já vi um sprinter, com 1,83 metros e 83 quilogramas, vencer uma etapa em que dobrou o Col d’Aubisque como se estivesse a contornar uma rotunda no último quilómetro de uma chegada em pelotão compacto. Notável!

E, mais do que a capacidade física patenteada, foi a lição táctica do “Touro de Grimstad” que saltou à vista. “Deixou” escapar Jérémy Roy, da Française-des-Jeux, durante a escalada ao Aubisque (subida de categoria especial) para na descida e na parte plana, bem mais ao seu jeito, apanhar e passar directo pelo francês, ainda que com a colaboração de um impotente David Moncoutié (Cofidis).

Hushovd veio confirmar a boa prestação da Garmin-Cervélo nesta edição da Grande Boucle, dando mais uma vitória à formação norte-americana, que agora lidera também a classificação por equipas.

O triunfo na chegada a Lourdes, depois de percorridos 152,5 quilómetros, prova que o norueguês está cada vez mais um ciclista polivalente. A sua capacidade para o sprint é inegável, embora já não seja dos melhores nesse capítulo. Defende-se cada vez melhor nos contra-relógios individuais, bem como a rolar e, nos últimos tempos, tem desenvolvido qualidades no que respeita à forma como enfrenta a média e alta montanha, integrando-se em fugas e indo buscar pontos onde todos os rivais na luta pela camisola verde não conseguem.


Em relação aos homens para o triunfo final, pouco há a assinalar. Ninguém mexeu na corrida, num dia muito morno e de poupança para a dura jornada deste sábado. No total serão seis as contagens de montanha, com chegada ao mítico Plateau de Beille, montanha de categoria especial.

Estou certo de que amanhã se farão diferenças mais significativas do que aquelas que se verificaram em Luz-Ardiden. Direi mesmo que mais um dia mau para Contador poderá ditar o adeus à vitória final. E, sem azares pelo meio, estou curiosíssimo por assistir à prestação de Peter Velits, bem como aferir da capacidade de resistência – se é que ficou alguma coisa por provar – de Thomas Voeckler.

Uma nota final para um ciclista que muito prezo e que aumentou o rol de desistências: ainda que veterano, é uma pena ficarmos privados de ver Andréas Klöden no que resta da prova gaulesa.

Octávio Lousada Oliveira

sexta-feira, julho 15, 2011

COL DU GALIBIER #12: Nem meio cheio, nem meio vazio


No desporto, tal como na política ou em tantas outras áreas, a realidade é passível de várias interpretações e de múltiplas formas de a tentar contornar. Já aqui referi implícita ou explicitamente que Alberto Contador é o meu favorito à vitória nesta edição do Tour de France 2011. Apontei-o até como o homem para vencer na difícil chegada à estância de esqui de Luz-Ardiden, depois da passagem por La Horquette d’Ancizan e da exigente subida ao Col du Tourmalet. Equivoquei-me. Mas durmo tão bem para esse lado. Durmo mal é ao ouvir a relativização que o espanhol fez no final da tirada, depois de perder mais tempo para os seus adversários directos.

Ao longo das três escaladas – as duas últimas de categoria especial -, o dorsal n.º 1 da Grande Boucle nunca aparentou estar em grandes condições. O corpo visivelmente inclinado sobre a bicicleta, menor cadência de pedalada do que costuma apresentar, um abanar constante quando se levantava do selim, algum sofrimento estampado no seu rosto quando alguém imprimia um ritmo mais elevado no grupo principal e, mais importante, a dificuldade em estar bem colocado como a maioria dos seus adversários. Mas, como o ciclismo também bebe de algumas características do póquer, poderia ser uma artimanha, um acto de bluff do espanhol…

Mas nos últimos quilómetros – dos 211 totais – da derradeira escalada, ficou claro que “El Pistolero” não é o mesmo do Giro ou de outras edições da prova gaulesa. Não é que os 13s que cedeu para Andy Schleck, Cadel Evans e um regenerado Ivan Basso sejam demasiado significativos ou que a distância a que já está dos irmãos Schleck – nota muito positiva para a etapa do primogénito da família – e de Cadel Evans seja irrecuperável, mas o capital de moral que tinha conquistado na quarta etapa, quando demonstrou imensa força, desvaneceu.

Pode-se levar em linha de conta o Tour atribulado que está a ter, com vários tombos, algumas mazelas ainda visíveis e com a enorme pressão mediática a que está sujeito por causa da velha história do clembuterol, mas hoje, ainda que tenha afirmado estar “satisfeito com o resultado”, foi derrotado. Não há aqui qualquer hipótese para olharmos para o copo e relativizar ou ser ambíguo. Não está meio cheio, nem está meio vazio. Há quem esteja melhor que o ciclista da Saxo Bank-Sungard nesta fase. Ponto.


E a sua equipa, sem ter trabalhado muito na frente do pelotão, salvo Jesus Hernández, foi um autêntico flop, face a uma Leopard Trek avassaladora, com o veterano Jens Voigt a fazer de Cancellara e a impor um ritmo que desfez o grupo principal.

Nesta 12.ª etapa importa também dar o devido valor ao esforço sobre-humano do ainda camisola amarela Thomas Voeckler (Europcar) e ao altruísmo do seu colega, o jovem Pierre Rolland, que o escudou até cruzarem, juntos, a linha de meta.

Samuel Sánchez, esse, foi o herói do dia. Os Pirenéus, vestidos de laranja, rejubilaram com a prestação do ciclista basco da Euskaltel-Euskadi. Sánchez recuperou tempo e bastantes lugares na geral individual.

Positiva alta para Basso e Cunego e um chumbo para a Rabobank. Gesink confirmou que está longe da sua melhor condição e León Sánchez, 2.º da geral à partida, desiludiu tremendamente. A RadioShack continua a ser perseguida pelo azar. Hoje foi a vez de Klöden. Escapou Leipheimer, ainda que a léguas do que já conseguiu fazer no Tour.

Em jeito de balanço, assistiu-se a uma etapa com algum interesse mas muito, muito, muito morna. A velha asserção de que a montanha pariu um rato adequa-se na perfeição. É que, em bom rigor, sem Contador em forma, a coragem escasseia. Só ele e os irmãos Schleck preferem perder a tentar ganhar.

Octávio Lousada Oliveira

quarta-feira, julho 13, 2011

COL DU GALIBIER #11: Uma para ti, três para Cavendish


E já são três os pássaros na mão de Mark Cavendish. Já tinha 15 na sua gaiola. Quatro apanhados em 2008. Juntou-lhes seis na edição de 2009 e ainda lhes somou cinco no Tour de 2010. Só em 2007, por ter abandonado prematuramente, não conseguiu nenhum.

O "Expresso da Ilha de Man" voltou hoje a dar uma lição a toda a concorrência, com André Greipel à cabeça, e a demonstrar de forma contundente por que razão é considerado o melhor sprinter da actualidade.

Foi desgastante o trabalho da HTC-Highroad, numa tirada entre Blaye-les-Mines e Lavaur, num total de 167,5 quilómetros. A equipa norte-americana foi “queimando” sucessivamente Danny Pate, Matthew Goss, Tejay Van Garderen, Lars Bak e Bernhard Eisel para controlar a corrida. No entanto, nos quilómetros finais, sobravam Mark Renshaw, Peter Velits, Tony Martin e o próprio Mark Cavendish. Atendendo a que etapa de amanhã vai exigir esforço máximo dos homens da geral, Allan Peiper optou por poupar Velits e Martin, entregando a responsabilidade de lançar o seu “menino” nas melhores condições a Mark Renshaw.


Contudo, houve uma adequação da estratégia às circunstâncias da etapa e aos recursos humanos de que dispunha. Ao invés de expor Renshaw ainda longe da meta, o team manager decidiu explorar outros comboios, retribuindo a simpatia que por norma têm para com a sua equipa.

A Garmin-Cervélo, na tentativa de levar Tyler Farrar ao triunfo, abriu caminho e Renshaw “só” teve que servir de rampa para Cavendish. E, quando esta dupla que se entende de olhos fechados está no sítio certo, raramente falha. O britânico, de 26 anos, respondeu assim a André Greipel, que lhe roubou a vitória no dia de ontem, e ainda somou os pontos suficientes para ascender ao 1.º lugar da classificação por pontos. 

Como já referi neste espaço noutros dias, amanhã é o primeiro teste aos favoritos. Na chegada à estância de Luz-Ardiden, com passagem prévia pelo Col du Tourmalet, dará para aferir quem tem as unhas no tamanho ideal para tocar guitarra. Favoritismo para Alberto Contador, na minha opinião, com Andy Schleck e Evans muito próximos. Estou muito curioso para ver Peter Velits, confesso. Posso falhar de forma tremenda, mas o eslovaco, de 26 anos, está entre os meus eleitos para o top 5. Vamos ver…

Octávio Lousada Oliveira

COL DU GALIBIER #10: A "vendetta" de Greipel


Errei nas minhas previsões. Supus que uma fuga vingasse no dia de ontem mas equivoquei-me rotundamente. Numa etapa curta e de transição, que ligou Aurillac a Carmaux, num total de 158 quilómetros, a HTC-Highroad e a Garmin-Cervélo controlaram sempre as ocorrências e não deram concessões quer a fugitivos, quer a um ataque próximo do final levado a cabo por Philippe Gilbert – que levou consigo o próprio camisola amarela Thomas Voeckler e o perigoso Tony Martin.

Confesso que esperava alguma poupança por parte das equipas dos principais sprinters e nem acreditava que alguns dos homens mais rápidos do pelotão resistissem à abordagem às quatro contagens de montanha (duas de 3.ª categoria e duas de 4.ª) da tirada.

Sendo que a história se resume a isto, importa, pois, sublinhar mais um sprint pouco convencional. O comboio da HTC-Highroad voltou a não ter um comportamento exemplar e Cavendish, ao invés de sair da roda de Mark Renshaw ou de Bernhard Eisel, deu o peito ao vento muito cedo, aproveitando o lançamento de Fabio Sabatini da Liquigas.


Aí, foi fácil a um ciclista mais corpulento aproveitar a exposição prematura de Cavendish e, com toda a propriedade, reclamar os louros da vitória. Falo de André Greipel, ex-companheiro do “Expresso da Ilha de Man”, que acabava sempre por ser preterido aquando das grandes competições. Foi um triunfo com sabor a ajuste de contas, até porque Greipel continua muito desapoiado na Omega Pharma-Lotto. Basta ver que, numa potencial chegada em pelotão compacto, Gilbert não teve qualquer pejo em mexer na corrida. Não me parece errado, quando se tem o melhor ciclista do mundo em chegadas acidentadas, mas transmite uma falta de confiança no homem rápido de serviço.

Na geral, tudo na mesma. O francês Voeckler continua a envergar a maillot jaune e não me parece que isso vá mudar esta quarta-feira.

Para amanhã, preparem o melhor lugar do sofá, bolachas ou o que vos aprouver. O Tour começa a sério. A chegada a Luz-Ardiden, nos Pirenéus, é já ali…

Octávio Lousada Oliveira

segunda-feira, julho 11, 2011

COL DU GALIBIER #9: Quem tem medo da televisão?


Já tinha sublinhado neste espaço a atipicidade desta edição do Tour de France. Porém, ocorreu ontem o episódio mais insólito e lamentável desde o início da prova gaulesa. Mas por que raio um carro da empresa que tem a seu cargo a produção televisiva da Grande Boucle faz uma manobra tão arriscada, numa estrada demasiado estreita, “ceifando” por completo Juan Antonio Flecha (Sky) e, consequentemente, Johnny Hoogerland (Vacansoleil)?

É preciso mesmo muita falta de atenção ou uma dose considerável de incompetência para pôr em causa a integridade física de cinco ciclistas – afinal podiam ter tombado todos os fugitivos.

Se repararmos, estas desatenções só vêm contribuir para um Tour irremediavelmente caricato e acidentado. Apesar de já ter assistido a edições com mais abandonos até à 9.ª etapa, a verdade é que chegamos ao primeiro dia de descanso já com vários candidatos ao top 10 – não acredito que fossem efectivos pretendentes a envergar a amarela nos Campos Elísios – fora da competição. Depois de Brajkovic e Horner (ambos da RadioShack) e Wiggins (Sky), ontem ficaram arredados da luta Vinokourov (Astana), Van den Broeck (Omega Pharma-Lotto) e Zabriskie (Garmin-Cervélo), todos vítimas de uma queda em que também Millar (Garmin-Cervélo) e Kloden (RadioShack) estiveram envolvidos.


Já Alberto Contador, uns quilómetros antes, tinha sentido o asfalto, confirmando a malapata que o tem acompanhado desde o primeiro dia.

Quanto à etapa propriamente dita, destaque para a reviravolta na classificação. Thor Hushovd (Garmin-Cervélo) perdeu a amarela para o francês Thomas Voeckler (Europcar), na segunda jornada em que uma fuga foi bem sucedida. Luis León Sanchez (Rabobank) levou de vencida o novo líder e o outro francês que os acompanhava, Sandy Casar (Française de Jeux), subindo ao segundo posto da geral individual.

Entre os favoritos não houve grandes mexidas. Houve um pequeno corte no pelotão na chegada a Saint-Flour, motivado pela dureza do último quilómetro e meio. Levi Leipheimer, Andreas Kloden, Ivan Basso e Robert Gesink perderam 8s para Contador, para os irmãos Schleck, para Evans, para Cunego e para Samuel Sanchez.

O merecido descanso chega esta segunda-feira. Os ciclistas vão retemperar, vão procurar recuperar de algumas mazelas sofridas e, sobretudo, ganhar coragem para o que aí vem. A etapa de terça-feira será “apenas” uma transição mas os Pirenéus já estão à vista. Creio que teremos nova fuga a vingar.

Em jeito de balanço, esta primeira parte de Volta tem, quanto a mim, quatro homens uns furos acima do restante pelotão. 1.º: Philippe Gilbert pela vitória na etapa inaugural, pela liderança na classificação por pontos e pela potência que demonstra em cada ataque; 2.º: Thor Hushovd pela forma como contribuiu para o bom desempenho colectivo da Garmin-Cervélo e pelo estoicismo com que segurou a amarela até este domingo; 3.º: Mark Cavendish uma vez que, em chegadas em pelotão compacto, é o melhor do mundo e já o demonstrou por duas vezes nesta 98.ª edição do Tour; 4.º: Cadel Evans, uma vez que, dos favoritos à vitória final, foi o único que não cedeu segundos nas etapas mais complicadas. Chegou numa forma impressionante, não baqueou em nenhuma circunstância e até já venceu uma tirada. Teremos homem para a amarela em Paris?
Octávio Lousada Oliveira

sábado, julho 09, 2011

COL DU GALIBIER #7: É o respeito, estúpido!


Ouve-se amiúde falar de uma espécie de código entre os ciclistas que compõem o pelotão internacional. Esse acordo tácito, que consagra valores como a solidariedade, o respeito, o jogo limpo, entre muitos outros, que deviam imperar nas provas velocipédicas, no desporto em sentido amplo e na sociedade em geral.

No entanto, há uma grande disparidade entre a verborreia da maioria dos ciclistas e respectivos directores desportivos e as acções dos mesmos, dia-a-dia, nas estradas.

O que se passou na etapa desta sexta-feira, num total de 218 quilómetros entre Le Mans e Châteauroux foi, sem eufemismos, vergonhoso. Razão tem Bernhard Eisel (HTC-Highroad).“Não há respeito no Tour”, considera o ciclista austríaco que, ontem, foi fundamental na preparação do sprint para Mark Cavendish.

Num dia marcado pelo infortúnio de Bradley Wiggins (Sky), forçado a abandonar o Tour na sequência de mais uma queda no pelotão, e pela confirmação de que Tom Boonen não saiu bem tratado do tombo de anteontem, indo também mais cedo para casa, foi muito pouco correcto ver a Leopard Trek e a BMC a aumentarem o ritmo quando Levi Leipheimer e Christopher Horner (ambos da azarada RadioShack) seguiam num grupo mais atrasado, também eles prejudicados pelo sucedido. O segundo, recorde-se, fracturou mesmo o nariz e já hoje se soube que não continua na Grande Boucle.

Parafraseando uma figura do futebol nacional: “O fair-play é uma treta!”


Bernhard Eisel foi mesmo mais longe, apesar de não ter querido alongar-se muito sobre o assunto. “Quando estamos na preparação dos sprints, há equipas que se intrometem e aproveitam o nosso trabalho. Mas nós estamos tranquilos até porque quando chegarem as etapas de montanha vamos ter uns dias de férias e eles não. Não vamos aproveitar o trabalho de ninguém”.

Não poderia estar mais de acordo. Que a HTC-Highroad ou a Garmin-Cervélo, que vinham a assumir as despesas da perseguição há bastantes quilómetros, não baixassem o ritmo, é compreensível e justificável. Estava um possível triunfo em causa. Que as outras equipas que referi se juntassem ao comboio acho inadmissível. Leipheimer, esse, está fora da luta pela vitória final e até mesmo de uma possível tentativa de pódio. Triste.

Importa ainda referir que, nos metros finais, Cavendish não deixou os seus créditos por mãos alheias e arrebatou a vitória, sobre o veterano Petacchi (Lampre) e sobre o seu ex-colega Andre Greipel (Omega Pharma-Lotto).

Hoje, meus amigos, começa a Volta a França a sério. Espero que a dos logros e dos azares tenha ficado em Châteauroux.
Octávio Lousada Oliveira

sexta-feira, julho 08, 2011

COL DU GALIBIER #6: Para levar a sério!


Aprecio bastante o conceito de hibridismo quando aplicado ao ciclismo. Polivalência tresanda a futebol (e a treinadores como José Mourinho ou Paulo Bento) - sem qualquer sentido pejorativo inerente. Isto porque ser polivalente remete-nos para a ideia de um ser multifacetado, embora, na prática, não seja muito bom ou especialista em nenhuma das suas incumbências. O hibridismo é algo menos comum: é como uma selecção de qualidades de seres diferentes que tem a mãe natureza como agente activa, como um composto orgânico que combina as especificidades de elementos que, isoladamente, são pouco úteis, como um texto que comunga da simplicidade da função denotativa e, a espaços, da erudição da função poética.

Edvald Boasson Hagen, o vencedor da tirada desta quinta-feira que ligou Dinan a Lisieux, não é um corredor polivalente. É um paradigma de hibridismo. Tem uma elevada estatura sem comprometer demasiado a sua capacidade para subir. Mesmo trepando bem, não deixa de rolar a bom ritmo em terreno plano. É explosivo e possui uma considerável velocidade de ponta, como se viu na sua primeira vitória na Grande Boucle, sem que isso prejudique a sua manifesta propensão para esforços solitários contra o cronómetro (é pentacampeão norueguês na especialidade). Aos 24 anos, já integrou a fortíssima HTC-Highroad, sendo agora um dos comandantes do quartel da Sky.


No artigo de ontem já tinha referido que Cavendish não suportaria o perfil “em dentes de serra” da etapa e isso confirmou-se. Farrar, Petacchi e Greipel também não aguentaram a última subida, com o ritmo imposto pela equipa do “Expresso da Ilha de Man”, apostada em levar Matthew Goss ao triunfo na etapa mais longa desta edição do Tour (226,5 quilómetros).

Contudo, foi o compatriota do camisola amarela, um imberbe cheio de qualidade, que reclamou para si a subida ao pódio, após um sprint apertado com Goss e com o líder da prova, Thor Hushovd. Aquele que apontei como favorito claudicou. Faltaram pernas – ou um lançamento exímio, como o que Gerraint Thomas fez para Boasson Hagen – para que Joaquín Rojas Gil se intrometesse entre os três primeiros. Já que falamos de jovens, uma nota ainda muito positiva para o italiano Adriano Malori, campeão italiano de contra-relógio, que foi o homem mais combativo desta dura jornada.

E, para todos os que dizem que a velha guarda do ciclismo é que tinha encanto, só neste artigo já apontei meia dúzia de nomes que ainda não dobraram – ou que completaram há pouco tempo – um quarto de século de existência. Esta juventude tem de ser levada a sério!

Octávio Lousada Oliveira

quinta-feira, julho 07, 2011

COL DU GALIBIER #5: Está a tornar-se demasiado atípico!


Está a tornar-se muito difícil fazer qualquer tipo de previsão ou antecipar o que quer que seja na edição deste ano do Tour de France. Primeiro, eliminam o prólogo e fazem desaparecer as bonificações no final das etapas e nos sprints intermédios. Depois, traçam uma primeira tirada que termina numa colina, ao estilo das clássicas da Primavera, originando que o primeiro camisola amarela fosse alguém com características diferentes do habitual. Seguidamente, introduzem o contra-relógio por equipas para se verificar nova cambalhota na geral individual e na classificação por equipas. Como se não bastasse, ao quarto dia, temos nova chegada propícia a ataques e abanões. E, na jornada em que tudo parecia pensado para que a normalidade e a mediania se instalassem – excepto uma aproximação ao mar até à chegada a Cap Fréhel, onde o vento se poderia fazer sentir -, eis que ocorre um número invulgar de quedas e um sprint com contornos especiais.

Foram 164,5 os quilómetros que os ciclistas tiveram de percorrer no Noroeste francês, num percurso pouco sinuoso e aparentemente tranquilo. Contudo, seria trabalhoso contabilizar o total de quedas e, mais grave, o número de corredores com mazelas.

O mais mal tratado foi mesmo o esloveno Janez Brajkovic, da RadioShack, obrigado a abandonar prematuramente a prova gaulesa, tal como o campeão francês de contra-relógio, Christophe Kern, da Europcar. Posso incluir no rol de acidentados Robert Gesink, Tom Boonen, Sylvain Chavanel e o vencedor do ano passado, Alberto Contador, que “beijou o asfalto” por duas ocasiões – está complicada esta primeira semana para “El Pistolero”! A esse respeito, o dorsal n.º 1 chegou mesmo a afirmar que “estas etapas podem ser mais perigosas que os dias de montanha”.


Por outro lado, quem seguiu a etapa em directo teve a oportunidade de constatar que foi um sprint atípico aquele que deu a vitória – finalmente! – ao britânico Mark Cavendish. Preparação certinha por parte da HTC-Highroad, mas, quando Mark Renshaw olhou por cima do ombro, o Expresso da Ilha de Man não vinha na sua roda. O lançador abriu para o lado e obrigou a que fossem outros homens, como Boasson Hagen e Hushovd, a fechar o espaço para Peter Velits (HTC-Highroad). Quem aproveitou foi Phillipe Gilbert, que lançou o sprint, acabando por alcançar o segundo posto. Isto porque, numa outra linha de sprint, Joaquín Rojas Gil tentou a sua sorte mas já tinha o fantasma de Cavendish na sua roda, que, como se sabe, quando arranca de boa posição, costuma ser mortífero. A “aparição” de hoje fez lembrar o australiano Robbie McEwen, perito no aproveitamento dos comboios feitos para os seus adversários.

Na geral, tudo na mesma. Hushovd continua de pedra e cal na liderança, ainda que a maillot jaune esteja presa por 1s.

Para amanhã, prevejo uma etapa mais tranquila – o que não será difícil de acontecer -, e, pasmem-se, não aposto em Cavendish. Acredito que a Movistar trabalhará para o fazer descolar do pelotão na subida de 3.ª categoria, ou mesmo na última escalada (de 4.ª), procurando levar Rojas Gil ao primeiro triunfo da carreira na Grande Boucle. É este o meu vaticínio.

Octávio Lousada Oliveira

quarta-feira, julho 06, 2011

COL DU GALIBIER #4: Contador bem podia ter levantado os braços…


Sou suspeito nesta análise. Assumo que admiro Alberto Contador. Repudio veementemente o comportamento dos adeptos e da imprensa internacional para com o espanhol. Também estou ciente de que a etapa de hoje foi categoricamente arrebatada pelo australiano Cadel Evans – que revela estar numa forma muito assinalável neste início de Tour -, mas foi o dorsal n.º 1, quanto a mim, que enviou um sinal a toda a concorrência. “El Pistolero” teve uma oportunidade de atacar e de mostrar credenciais, as pernas corresponderam e conseguiu retirar segundos a alguns dos adversários directos. Aquele levantar inocente de braços – de quem pensa que conquistou a tirada – não perde o sentido. O efeito psicológico sobre os demais pode ter um peso significativo no desfecho da Grande Boucle.

De resto, é relativamente simples fazer a sinopse do filme desta terça-feira. Os fugitivos acabaram, naturalmente, por ser actores secundários. Imanol Erviti (Movistar), Johnny Hoogerland (Vacansoleil), Jeremy Roy (Française de Jeux), Gorka Izagirre (Euskaltel) e Blel Kadri (AG2R La Mondiale) animaram grande parte dos 172,5 quilómetros, mas o trabalho árduo de várias equipas, com particular relevo para a BMC de Evans, deitou por terra quaisquer hipóteses de erguerem o galardão no Mûr-de-Bretagne.

A partir do momento em que a frente da corrida foi alcançada foi um veterano a dizer repetidamente “corta”. George Hincapie, um antigo escudeiro de Lance Armstrong, impôs um ritmo diabólico na pequena mas dura subida final. E foi, de facto, sempre a cortar. Já Cavendish e Farrar começavam a recuperação activa para o dia de seguinte…


Faltava, no entanto, agitação. Contador dançava na bicicleta logo nos primeiros lugares. O ziguezaguear foi só um prenúncio para o ataque. A triagem estava feita e só Evans, Phillipe Gilbert, Vinokourov e Jurgen Van den Broeck responderam à altura.

Um apontamento para Gilbert: muito feia a forma como, com vontade de vencer ou com pouca confiança nas capacidades do colega, fechou o espaço que Van den Broeck conseguiu ganhar aos restantes membros do grupo. Se ontem sublinhei a solidariedade no seio da Garmin-Cervélo, nomedamente de Hushovd, hoje sou obrigado a criticar a acção do campeão belga, da Omega Pharma-Lotto.

No meio disto, novo abanão de Contador e só Evans conseguiu dizer presente. Os dois disputaram o triunfo ombro a ombro, mas o photo finish dissipou as dúvidas. Evans foi mesmo o protagonista, de uma história que até correu bem ao espanhol de 28 anos, merecedor de uma menção honrosa. Prova disso foram os 8s ganhos a grande parte dos “contenders”, como Wiggins, Basso, Cunego e, sobretudo, Andy Schleck.

De notar e de destacar, uma vez mais, Thor Hushovd. O norueguês continua de amarelo. Acredito que tenha sofrido. Acredito que a acumulação de ácido láctico nos músculos das pernas fosse difícil de suportar, mas todos sabemos que envergar a liderança de uma grande prova obriga a momentos de transcendência e a que se enfrentem missões hercúleas como se da mais simples empresa se tratasse. Bravo!
Octávio Lousada Oliveira

terça-feira, julho 05, 2011

COL DU GALIBIER #3: Altruísmo norueguês no triunfo de Farrar


Para os muitos que não acompanham o ciclismo e que se limitam a discorrer sobre o mesmo na óptica de que basta ter glóbulos vermelhos para que estes veiculem o oxigénio até aos músculos – vulgo, ter pernas – a etapa de ontem provou precisamente o contrário.

O líder da prova, Thor Hushovd, revelou muita nobreza e altruísmo. Foi de excepção a forma como abriu caminho à vitória do seu companheiro de equipa Tyler Farrar. É raro ver-se um camisola amarela desbravar mato como se viu esta segunda-feira na chegada a Redon, depois de 198 quilómetros em terreno relativamente plano.


O norte-americano Farrar está de parabéns, tal como o maillot jaune, o lançador do vencedor da tirada de ontem, Julian Dean, e ainda o director desportivo da Garmin-Cervélo, Jonathan Vaughters, pela manifesta coragem ao colocar o seu comboio à disposição do seu melhor sprinter – que até nem era o principal favorito.

A dedicatória a Wouter Weylandt, falecido na edição deste ano do Giro, ainda tornou mais nobre uma vitória, que, não sendo surpresa, demonstra a importância do trabalho e esforço colectivos no ciclismo.

Nota negativa para Cavendish, o grande candidato ao triunfo nesta chegada massiva, que foi apenas 5.º e destaque pela positiva para o francês Romain Feillu e para o campeão espanhol José Rojas Gil, pelos lugares obtidos (2.º e 3.º, respectivamente).

De salientar ainda que com bonificações à chegada, este cenário não teria sido possível, uma vez que Hushovd teria que ir disputar os 20, 12 e 8 segundos extra com o “Expresso da Ilha de Man” e outros ciclistas que ameaçassem a sua liderança.

Há sprints que valem a pena. Este foi um deles.
Octávio Lousada Oliveira